8.27.2009

O corno que sabia demais

O caso é que a mulher do Bezerra estava botando chifres na testa da anta, ao menos o cretino pensava que sim!
— Um corno! Um chifrudo!! — afirmava seguro de si, mas sem um pingo de revolta na voz — É isso o que eu sou!! A essas horas a adúltera está por aí, me enfeitando a testa, está sabendo?
— Eu descubro... Se estiver mesmo eu descubro! — assegurei.
E ele, exaltado:
— Se estiver? Se estiver? Eu sei que está!! Me diga, o senhor já viu a minha mulher? — e me passou uma foto da sua cara metade — Olha bem pra ela... Vê só a cara de adúltera... O olhar de Messalina...
Linda. Um mulherão a senhora do Bezerra. E o homem insistia:
— Trai! É claro que trai! O senhor não se preocupe que eu não sou um corno homicida... Eu só quero as provas... — e levando as mãos à testa — Que saber eu sei, eu sinto! Eu acordo, me olho no espelho e o que é que eu vejo? Eu vejo um chifrudo, senhor Zózimo!


APETITE DE BEATA

Difícil não concordar com o Bezerra, uma mulher tão bonita quanto a dele tinha obrigação de ter um amante, o dever cívico de ser infiel, sobretudo tendo se casado com um bucho como o meu cliente. E, no entanto, mais de uma semana já que eu estava vigiando seus passos e nada de ela vestir o figurino de adúltera, muito pelo contrário. Ela era praticamente uma Madre Tereza no corpo de uma Marta Rocha. Saía de casa todos os dias e ia direto pra um orfanato, onde lia conto de fada pra molecada. E só não voltava direto pra casa após a boa ação porque antes desfilava aquele corpão até uma igreja e então rezava com apetite de beata. E só então, após umas trinta Aves Marias e não sei quantos Pais Nossos é que ia pra casa.
Mas então, no sétimo dia, o desejo de trair ressuscitou dentro dela e a mulher do Bezerra não foi pra casa depois que saiu da igreja. Meu faro cantou a bola pra mim: ela ia se encontrar com o amante. Batata.


UMA SANTA

— E não foi?... É isso que o senhor está me dizendo?
Não foi. Era isso o que eu tinha acabado de falar pro Bezerra.
— Pois é, saiu da igreja e foi ajudar a servir sopa pra um bando de mendigos, na central do Brasil. Eu fiquei besta, de queixo caído, mas foi isso mesmo o que ela foi fazer no centro.
— Sopinha pra mendigo? É isso o que o senhor está me dizendo?
— Perfeitamente. É isso o que estou lhe dizendo... – e afirmei, com a mais absoluta convicção profissional: — Tua mulher é uma santa!
— Santa o cacete! Desse jeito o senhor me desaponta! — e praticamente me enxotando do seu escritório: — Volta lá e só me apareça por aqui quando tiver as provas da traição!!
Não teve conversa, o Bezerra só ficaria feliz quando eu “desmascarasse a adúltera”. Mas ela não colaborava, manteve-se dentro do programa habitual: primeiro lia pras criancinhas do orfanato, depois ia pra igreja e rezava até o joelho, delicioso, diga-se de passagem, criar calo e uma vez por semana rumava pra Central do Brasil, onde ajudava a servir a tal sopa pros indigentes. Eu estava de queixo caído, atordoado com tamanha bondade. Já o Bezerra, assim que fiz o relatório, ao fim da segunda semana de investigação, soltou fogo pelas ventas:
— Como? O senhor está de brincadeira comigo! Só pode ser isso... Duas semanas seguindo a adúltera e me volta aqui dizendo que ela passou esse tempo todo lendo conto de fada pra moleque de orfanato, dando sopinha pra vagabundo... — e me fuzilando com o olhar: — O senhor acha que tenho cara de trouxa? Eu sou corno! Corno eu sei que sou... Mas trouxa eu não sou não, senhor Zózimo!
— Estou lhe dizendo: ela não trai. Não trai de jeito nenhum!!
Ele, vermelho de raiva, a ponto de saltar na minha jugular:
— Que decepção!! Um macaco velho como o senhor se deixar enganar desse jeito... Cof!... Você não tem orgulho profissional, homem?... Cof!... Não tem?...
— Calma! — adverti, vendo que o homem ia ter um negócio se não se acalmasse — Desse jeito o senhor vai acabar tendo um troço...
Teve mesmo. Desabou na minha frente. E só não fechou o paletó porque foi socorrido a tempo.


UM VELHO AMIGO

Dois dias depois visitei o homem, no hospital. Ele perguntou pela mulher, que tinha acabado de sair, e eu informei:
— Estava aqui até agorinha mesmo... Saiu... Ouvi que ela foi até a igreja rezar pelo seu restabelecimento.
O Bezerra me olhou com desprezo, como se eu fosse um idiota.
— E o senhor acreditou? Pois vá atrás dela agora mesmo... Cof!... Vá que eu lhe pago o dobro!!
Eu fui. Não só pela grana, mas também porque queria salvar a vida do Bezerra. E só tinha um jeito, se a novela continuasse ele ia bater as botas logo, logo. A mulher dele estava realmente na igreja, como era de se esperar, no meio de um Pai Nosso ou uma Ave Maria, algo assim, e ficou comovida quando me apresentei como um velho amigo do Bezerra.
— Amigo do meu marido?... Ah, acho que vi o senhor no hospital...
— Isso... Um amigo... E sei exatamente o que fazer pra ajudar o Bezerra!
— Pois então me diga, faço qualquer coisa pra salvar o Bebê!
Como dizer a ela que somente um belo par de chifres seria capaz de salvar a vida do marido? Falei com jeito, apelei pro sentimento cristão dela, mas não adiantou. Cataplum!! A mulher do Bezerra deixou a igreja após me acertar uma bofetada no meio da cara, tão furiosa que nem se lembrou de pedir perdão a Deus e aos santos por aquele ato de extrema violência cometida em solo sagrado, senhores.


COLADO NA ADÚLTERA

No dia seguinte voltei ao hospital (assim que a mulher do infartado saiu, é claro).
— Veio... — me disse quando perguntei pela mulher — E me passou a maior descompostura... Disse que sou um tarado, que nunca, nunquinha, olhou pra outro homem... Falou que só não me deixa porque o que Deus uniu o homem não separa...
— Então?...
— Fingimento!! Tudo fingimento! Ela nega, mas trai... Nega, mas trai!!
Bezerra não me deixou desistir, botou mais grana na minha mão e me fez prometer que continuaria “colado na adúltera”. Por que não? O homem não estava pagando?!
E foi então que, uns dias depois, e pra minha surpresa!!, vi a mulher do Bezerra dando um chupão na boca de um rapagão. E nesse mesmo dia ainda se encontrou com outro garanhão. Depois virou zona, estava sempre com um tipo diferente, qualquer um que a quisesse. Estava sempre disponível pro pecado. Traiu na hora certa, aliás, mais uns dias e o Bezerra entrava em coma.


POR AMOR

Vai se saber o que fez a mulher dele abrir as pernas. O importante é que as boas notícias, acho que posso chamá-las assim, fizeram muito bem ao Bezerra.
— Uma galinha! Uma galinha! O primeiro foi um rapagão, um Apolo, mas ela vai com qualquer um. Com qualquer um!!
O homem estava eufórico, tinha nascido de novo.
— Eu sabia! Eu tinha certeza!! — não havia ódio e sim uma alegria infantil na voz daquele corno, um negócio comovente, meus senhores — Eu não te falei? Então eu não te falei, hein?
E de fato o Bezerra não era um corno homicida. Era apenas um homem que não se deixava enganar, um corno que sabia de tudo. Foram felizes! Ela, insaciável. Ele, orgulhoso dos chifres que ostentava e dos quais tinha pleno conhecimento.
Um dia ela mandou me chamar.
— Não quero que o senhor fique pensando mal de mim... – disse assim que cheguei ao local do encontro.
— Eu? Mas de modo algum, minha senhora.
— E quero que fique sabendo... — ela disse, aproximando-se e levando a mão àquela região acima do meu joelho e abaixo do meu umbigo — Que tudo que eu fiz, tudo mesmo!, foi por amor. Tadinho do Bebê, se acabando daquele jeito... Foi tudo por amor!
Então, após abrir minha braguilha, ela se ajoelhou e não disse nem mais uma palavra - e dá pra assoviar e chupar cana ao mesmo tempo? O fato é que eu saí da lá bem mais tarde, bota mais tarde nisso, com a melhor das impressões a seu respeito. E dá pra pensar mal de um doce de pessoa como a mulher do Bezerra?

O dia em Que Copacabana invadiu Madureira

Um sujeito aí, um tipo que apareceu em Madureira outro dia, saiu com uma pequena do harém do Bonitão, a Eunice. Isso transformava nosso Porfírio Rubirosa num corno? Era sobre isso que estávamos discutindo aquela noite, no boteco do Mossoró.
— Cornudo, claro. Batata — disse alguém.
— Mas o que é isso? E desde quando amante é corno? — retrucou um outro.
— Concordo. Chifre é coisa de marido, namorado ou amasiado – emendou qualquer um. — Se você não é nem uma coisa nem outra não tem como ser corno.
Até o Mossoró deu palpite:
— Pois eu diria que o amante é sempre um corno. No mínimo do marido, do titular.
Foi quando eu, voltando do banheiro, perguntei ao Paranhos, assim que me sentei à nossa mesa:
— E aí? É corno ou não é corno?
E ele, misterioso:
— A questão não é essa.
Todos olharam pro Paranhos, esperando que ele fosse mais claro, completasse o raciocínio, mas o policial permaneceu em silêncio, pensativo.
— E qual é a questão, carambolas? – provoquei.
E ele, assumindo ar de detetive de filme inglês:
— A questão é que o Bonitão foi alvo de um ataque inimigo.


A VÍTIMA

Mais tarde, ainda naquela noite, no conjugado do Bonitão, concluí que o Paranhos estava certo, coberto de razão. Alguém havia declarado guerra ao malandro e seu orgulho tinha sido a primeira vítima do conflito.
— Vivia aqui, ó!! — dizia, arrasado, olhando pra palma da mão. — Era eu estalar o dedo que ela deixava o marido chupando um Chicabon pra vir atrás de mim.
E dava pra ver que era uma questão de orgulho mesmo, que não tinha nada a ver com o fato da Eunice dar presentinhos caros pra ele, de pagar o aluguel do seu conjugado.
Descontrolado, se levantou repentinamente e caminhou até a porta, querendo sair – e não era em missão de paz. Eu não deixei.
— Eu mato esse cara! — ameaça. — Eu mato esse cara!!
— Ei, calma, muita calma nessa hora.


O ÚLTIMO A SABER

O inimigo se chamava Valadão. Pintoso, bom de papo e desocupado, avançava sem pena nem dó pelo território do Bonitão, conquistando posições estratégicas. Aliás, o avanço inimigo era o assunto do dia seguinte, outra vez no boteco do Mossoró.
— A Judite? Essa não é aquela boazuda, a mulher do farmacêutico? — alguém quis saber.
— Essa mesmo — informou outro alguém. — O tal Valadão está papando. Todo mundo está sabendo, menos o marido. O marido e o Bonitão, coitado.


GENERAL PARANHOS

Bonitão, que só não foi o último a saber porque essa honra pertence ao marido, queria matar, queria dar tiro. Quase teve um piripaque. Foi salvo por mim e pelo Paranhos, que, voluntário na tomada de Monte Castelo, tinha idéias claras sobre como conduzir uma guerra:
— Não adianta dar chilique. O negócio é impedir o avanço inimigo. Diz pra mim: o que você sabe sobre esse Valadão?
— Como assim o que eu sei sobre ele? Que o filho da mãe está deitando e rolando no galinheiro do Zezinho aqui, é isso o que eu sei sobre ele.
— Você e toda a torcida do Flamengo. Mas isso não é importante... Importante é conhecer o inimigo, é saber quem ele é, de onde ele vem.
— E de onde ele vem, carambolas? – quis saber o Bonitão.
E o Paranhos, transpirando vaidade profissional:
— De Copacabana. Vem de Copacabana, andei investigando. Um filho da mãe igual a você, desocupado que nem você. Só que com dinheiro. A mãe é viúva de um oficial da marinha. O negócio dele é gastar a aposentadoria da velha.
— E agora que a gente sabe quem ele é, faz o quê? – perguntei ao ‘general’ Paranhos.
— É, o que a gente faz? – Bonitão reforçou. E meio que perguntou, meio que sugeriu: — Matamos ele?


UM BOM LUGAR PARA GUERREAR: COPACABANA

Não matamos ninguém. Fomos passear em Copacabana.
— Traremos a guerra pra casa do inimigo, que é onde o sangue deve jorrar — discursou Paranhos, enquanto eu estacionava onde ele ordenou e de onde dava pra ver uma pequena sensacional vindo da praia.
— Mas que coincidência boa – comemorou Paranhos, apontando justo pra pequena que eu estava fotografando. — Olha lá... A noiva do Valadão. Ela passa o tempo todo na praia...
— Noiva do Valadão? — indagou Bonitão, interessado. — Papagaio.
O plano do Paranhos era, por incrível que pareça, dos mais geniais:
— Eu, se fosse você, atacava com tudo, não deixava sobreviventes.
E eu apoiei:
— Isso! Às favas com a convenção de Genebra.


O DESEMBARQUE

Quem visse, ao longo dos dias seguintes, Bonitão se aproximando da noiva do Valadão, todo simpático e generoso, com um Chicabon sempre à mão, não poderia imaginar que estava presenciando uma operação de guerra muito mais sangrenta que o desembarque aliado à costa da Normandia. E quando ele atacou pra valer, fez gato e sapato atrás das linhas inimigas.
— Ai... Assim você me mata. Assim você acaba comigo — gemia a noiva do Valadão, enquanto Bonitão despejava todas as suas bombas por entre as pernas da pobrezinha.





DECLARAÇÃO DE GUERRA

Depois foi só esperar o inimigo vir até nosso QG, no bar do Mossoró, assinar a rendição. Ele veio mesmo, mas nem pensava em rendição. Muito pelo contrário. E bota pelo contrário nisso!!
— Qualquer uma, mas qualquer uma mesmo. No duro, ouviu? Eu pego qualquer uma... Você me diz qual é que eu pego...
Resumindo: Valadão disse que comeria toda e qualquer amante do Bonitão. Que se não conseguisse não botava mais os pés em Madureira. Mas pra cada uma que ele pegasse Bonitão teria que conquistar uma posição em Copacabana, digamos assim. E ao primeiro fracasso, além de depor as armas, o derrotado teria que abrir suas fronteiras pro inimigo.
— Sem impor condições! — desafiou. — O vencedor pode pintar o caneco.
Quem foi que disse que o Bonitão tinha medo de ir pra guerra?
— Eu topo — disse, apertando a mão do inimigo.


TUDO NOVO NO FRONT

Pelos dias seguintes a batalha foi dura, encarniçada, posições iam sendo conquistadas de lado a lado e não havia a menor esperança de paz. Todo dia havia algo de novo no front. Mas Bonitão, apesar dos sucessos no campo de batalha, parecia ligeiramente deprimido.
— Está reclamando do quê? — perguntei. — Aposto e ganho que nunca comeste tanto.
E ele, sério:
— É. Mas jurava que o tal Valadão não ia papar tanto e tão fácil no galinheiro do Zezinho aqui.
— Ofendido por suas amantes traírem seus maridos com outro cara além de você? Falando no outro...
Ele mesmo, Valadão, o inimigo, adentrava o bar do Mossoró, onde estávamos Bonitão e eu. Cínico, veio direto a nossa mesa e entregou um ursinho de pelúcia pro Bonitão.
— Conhece? — provocou.
Fiz ao Bonitão uma pergunta cuja resposta já conhecia:
— Comeu?
E ele:
— Comeu! — e me passando o ursinho de pelúcia — Eu que dei de presente pra Odete.
— Foi moleza — zombou Valadão. — Mas sei de uma lá em Copacabana que você não papa. Sabe como é, mulher bem comida...
— O nome. Dá o nome da pequena e vamos ver.


UM GENTLEMAN

A posição a ser conquistada era uma tal Magda, pequena que vivia no prédio do Valadão. Ao contrário do que fora alardeado pelo inimigo, um alvo fácil. Não demorou muito, Bonitão já tinha comido e estava de saída do apartamento dela.
— Quer mesmo? No duro? — Magda gemeu, entregando uma fotografia pro garanhão. — Pra quê?
E ele:
— Pra te ter sempre perto do meu coração.
Daí a pouco, após se desvencilhar da pequena, está esperando o elevador. Quando a porta se abre, uma mulher de uns cinqüenta anos, muito bonita, sai lá de dentro, carregando muitas sacolas. Deixa uma delas cair.
Ele:
— Opa. Deixa que eu pego.
Ela:
— Muito obrigada, não precisa.
Ele:
— Que isso... É um prazer. Posso levar até seu apartamento?
Ela, encantada:
— Ah, faz favor? É o 608, ali no fim do corredor.
No minuto seguinte estão diante do apartamento dela.
— Quanta gentileza... Não tem mais disso hoje em dia não. Meu falecido, que era da marinha, também era assim sabe? Um gentleman.
Ela abre a porta do apartamento e eles entram. E o Bonitão, que ficou um tempão lá dentro, foi um gentleman com ela.


RENDIÇÃO

No dia seguinte, quando Bonitão jogou a foto da Magda sobre a mesa, Valadão tentou minimizar o feito do adversário:
— Também essazinha aí vai com qualquer um... Alvo fácil!
— Bota fácil nisso — concordou Bonitão. — Tava carente, coitadinha — e virando-se pra mim e pro Paranhos — Sabem como é, mulher mal comida se entrega fácil. Que nem francês quando alemão cisma de falar grosso.
Valadão se irritou um pouco:
— E agora, quem eu vou ter que papar? Uma bem difícil, faz favor.
E Bonitão, muito calmo, como se não estivesse no meio de uma guerra:
— Uma dona lá de Copacabana mesmo... Você nem vai ter que sair do teu prédio.
— No meu prédio?
— É. Mas essa eu acho que você ainda não papou.
E atira sobre a mesa uma foto onde a mãe do Valadão aparece em companhia do falecido marido.
— A foto é antiga, mas ela ainda dá um caldo — e, como na foto o pai de Valadão aparecia com sua farda de oficial da marinha, complementa: — Vai tranqüilo que o milico já empacotou!
Valadão quase infarta ao reconhecer o casal da foto.
— Mã... Mamãe...
Parte pra cima de Bonitão, agarra o inimigo pela camisa.
— Você nunca mais... Mas você nunca mais mesmo...
Paranhos precisa segurar Valadão pra ele soltar Bonitão. Apanho a foto da mãe de Valadão, esquecida sobre a mesa, e devoro a coroa com os olhos. Ela era muito boa mesmo.
E o Paranhos, empurrando Valadão:
— Fica quieto aí, elemento. Querendo levar um catiripapo, está?
E o filho daquela mãe sensacional grita pro Bonitão, com a promessa de morte no olhar:
— Nunca mais, ouviu?
— Nunca mais o quê? — devolve o garanhão. — Eu papar a tua mãe? Olha, se você parar de ciscar no meu galinheiro...
Valadão entendeu o recado e capitulou. Entregou a guerra sem negociar a rendição. Levantou-se pra ir embora, bruscamente. E já estava quase na porta do boteco quando voltou pra recuperar a foto dos pais. Precisou arrancá-la da minha mão. Daí foi embora. E nunca mais botou os pés em Madureira.
E o Bonitão, como se não tivesse vencido a terceira guerra mundial, gritou pro Mossoró:
— Vê uma aqui, ó. Uma bem gelada.

Em busca do tempo perdido

Uma pequena multidão acompanha o sepultamento da Dinorá. Fontes, o viúvo, geme um emocionado discurso de despedida:
— Vinte anos... Durante vinte anos estive casado com uma santa — e sob inspiração da chuvinha que começa a cair: — Mulher fiel até debaixo d´água.
Aí o Bonitão, que me obrigou a vir com ele, me dá um cutucão e fala baixinho:
— Mas ia trair, Zózimo, ia trair. E se morreu antes de botar chifre nessa besta aí foi por culpa tua, está sabendo?
— Culpa minha uma pinóia. Vai começar com essa história outra vez? Nem vem, meu filho. Nem vem.
— Tua culpa sim. Tua e daquela anta do Paranhos!! A verdade é que a santa fiel até debaixo d´água estava cansada de sua vidinha sem graça e ontem, assim que o Fontes foi pra repartição “colocar uns processos em dia”, ligou pro Zezinho aqui, está entendendo?
— Ligou?
— Então não estou lhe dizendo? Depois de vinte anos de casamento chatíssimo com essa besta orgulhosa de ser o primeiro a chegar e o último a ir embora da repartição ela tinha decidido pular a cerca. Comigo, naturalmente. E estava com uma vontade de trair que vou te contar, com a maior disposição. Quando estacionei o carro que um fulano aí me emprestou, no lugar combinado ela já estava me esperando, mais que pronta para o pecado. Ó, se eu não arranco depressa ia ter que comer ali mesmo, na esquina da Assembléia com a Rodrigo Silva.
— Papagaio.
— Mas aí o senhor melou tudo, seu Zózimo. O senhor e o Paranhos, aquela besta!!
— Não vem pra cima de mim. Nem vem. E eu podia falar não? Diz, eu podia falar não pro Paranhos, podia? Você está careca de saber que o homem não gosta de ser contrariado. E também sabe que ele queria prender o tal Cara de Cavalo. Aliás, só prender não: queria prender o meliante sozinho. Estava de olho numa promoção, eu acho. Ainda falei pra ele chamar algum colega do distrito, disse que assim era garantido, mas ele disse que “aquela era uma captura do detetive Paranhos” e que eu ia com ele só pra dar apoio moral.
— Aquela besta do Paranhos, aquele filho de uma puta. Bom, enquanto vocês se preparavam pra estragar minha festa, eu estava quase comendo a Dinorá. Quase, quase. Tinha levado ela praquela trilha no meio da mata... Aquela ali, embaixo daquele barranco alto, perto daqueles coqueirões. Estava deitando e rolando, chupando aquela boquinha...
— Canalha.
— A Dinorá estava nas nuvens, mas sabe como é, vinte anos não são vinte dias, ela não estava agüentando o tranco... Emoção demais, sabe? Tive que pegar leve, deixar a coitada respirar um pouco. E enquanto o Zezinho aqui era gentil, você e o Paranhos se preparavam pra estragar a festa!!
— Mas que culpa tenho eu se o Cara de Cavalo correu pro meio do mato assim que viu o Paranhos chegar?
— Justo pro lado que eu e a Dinorá estávamos. Papagaio! Mas nem pra vocês segurarem o filho de uma puta?
— E deu? O homem parecia ter asas nos pés, que nem aquele grego lá, aquele da mitologia, sabe qual?
— Uma ova que eu sei! Aliás, quer saber do que eu sei? Que graças a vocês a vaca do Zezinho aqui foi pro brejo.
— Sei. Eu sei, carambolas. Foi nessa hora que o Cara de Cavalo pulou do barranco e caiu bem em cima do seu carro, não foi?
— Isso! A Dinorá quase teve um troço, coitada. Entrou em pânico, pensando que era o banana do marido, vê se pode?! “O Fontes me mata! O Fontes me mata!” Como eu sabia que o corno nunca ia dar as caras por ali, imaginei que um coco tinha caído em cima do carro.
— Um coco?
— E ia pensar o quê? Ó, nem ela nem eu vimos o tal meliante. Na certa o sujeito num segundo caiu em cima do carro e no outro já tinha se embrenhado no meio da mata. Tranqüilizei a Dinorá e recomecei a festa, mas aí...
— Eu sei. Eu sei!! Aí o Paranhos e eu, na captura do elemento, também pulamos em cima do carro. Mas você tinha que estacionar justo debaixo do barranco?
— Agora a culpa é minha, é? Mas ora faça-me o favor!! Bom, aí a Dinorá saiu correndo e também se embrenhou no meio do mato. E eu fui atrás, é claro.
— E Paranhos e eu atrás do Cara de Cavalo. Mas como aquele negrinho corria, meu Deus?
— Acredita que depois disso tudo eu ainda botava fé que ia comer a Dinorá? E por que não? Então ela não estava doida pra dar? Ficava me perguntando se não era melhor a gente ir embora, dizia que devíamos ir, mas me deixava meter o chupão no pescoço, me deixava ir abrindo o vestido... Mas então, quando o Paranhos começou a atirar, aí não teve mais jeito...
— Antes ele ainda mandou o cara de Cavalo parar, nunca que íamos alcançar o sujeito. Como ele não parou...
— Acredita que a Dinorá e eu já estávamos pelados na hora do tiro? Aí foi um tal de vestir a roupa de qualquer jeito que vou te contar. Foi nessa hora...
— Eu sei. O Cara de Cavalo passou exatamente no meio da moita onde vocês estavam.
— Só ele não. Só ele não! Quando Dinorá e eu íamos nos levantando, o desgraçado tinha patrolado a gente, você e o Paranhos vêm e nos atropelam outra vez. Só então eu vi que você e aquela anta é que estavam atrapalhando a missa. Deu pra reconhecer, antes que vocês desaparecessem no meio da mata outra vez, atrás do tal Cara de Cavalo.
— E aí...
— E aí, cretino, e aí que não foi aquele o dia em que a Dinorá botou chifres no marido. Nem naquele dia, nem em nenhum outro. Depois daquele fuzuê todo não tinha mais clima. Levei a Dinorá de volta pra casa. Ela, no caminho de volta, não disse uma palavra, o coração da infeliz parecia que ia sair pela boca. Ó, ela quase desabou quando desceu do carro. Nem sei como conseguiu chegar em casa.
— Papagaio!
— Foi beijo, tiro e correria demais para quem passou os últimos vinte anos só ouvindo o marido falar do dia-a-dia na repartição. Sabia que ela, coitada!, ainda por cima tinha o coração fraco?
— Ah é, então foi o coração?
— Não te falei? Parece que foi só o tempo de entrar em casa pra ter um ataque fulminante.
— Coitada.
— Coitado do Zezinho aqui, que não comeu. Escuta... Vamos embora, não vou esperar o fim do enterro que não gosto de cemitério... Nem devia ter vindo. Vamos embora, tomar uma Brahma bem gelada. Ó, hoje você vai ter que pagar a conta.
— Eu pago. Fica frio que hoje a conta é minha.
— Sabe o que me consola, Zózimo?... É saber que o sujeito que você e aquela anta do Paranhos perseguiam conseguiu escapar.



UMA SEMANA

A cerimônia de sepultamento terminou. Um mar de flores cobre o túmulo de Dinorá. A multidão começa a ir embora e logo somente o viúvo, acompanhado de uma mulher, uma parente talvez, continua ao lado do túmulo. Então, quando estão sozinhos, num comportamento absolutamente impróprio, ele agarra a acompanhante e tenta beijá-la.
— Vem cá, Ivone, vem...
E ela, afastando-o:
— Ficou louco, meu filho? Aqui não. Vai que alguém nos veja.
— E daí? Então não sou viúvo agora? Durante vinte anos, por causa dessa sem graça, a gente teve que ficar se encontrando depois do expediente naquela merda de repartição — torna a agarrar a mulher. Da-lhe um beijo violento — Temos que recuperar o tempo perdido, oras.
— Aqui não. Que fogo!! — limpando o batom que ficou nos lábios dele — Olha o luto, meu filho, olha o luto.
— Está certo. Aqui não. Mas vamos pra minha casa agora mesmo. E vamos fazer na cama de casal, compreendeste?
— Na cama de casal? Mas como você é pervertido, Fontes! Eu... Pois eu topo. Eu topo, ouviu? Vamos botar fogo naquela cama.
E vão para a casa do viúvo. Já no carro, antes de dar a partida, ele encara a acompanhante e diz, muito sério:
— Ah, e meu luto vai durar só uma semana, está sabendo? Só uma semana. Nem um dia a mais!

8.26.2009

Madame Pompadour

Dr. Evilásio tinha chegado já há um bom tempo ao meu escritório, exatamente no horário marcado, mas ainda não havia dito nada além de um rápido e nervoso ‘boa tarde, seu Zózimo’. A criatura, desde a chegada, lutava pra ajustar à cabeça uma das perucas mais horripilantes já vistas sobre a face da terra. Puxava pra um lado e pro outro, pra cima e pra baixo. Então, finalmente, graças a Deus!, cansado de perder a briga pra peruca, que continuava tão horrível quanto claramente desconfortável na sua careca, rompeu o silêncio:
— O meu problema é a peruca, entende? – declarou, como se fosse preciso.
Aquele não era um bom momento pra esgrimir com minha sinceridade. Aliás, nunca é, não é verdade?
— Peruca? Está usando uma peruca? Eu nem tinha percebido. Olha, se o senhor não fala...
Não disse? Olha como o homem ficou feliz. Incrível como as pessoas gostam de ser enganadas.
— Que é isso? Dá pra notar sim — e bem idiota, completamente idiota —, se a pessoa prestar muita atenção, é claro. Mas estou falando é da outra. Aquela sim é que é uma maravilha, uma obra de arte, está compreendendo?
Não. Definitivamente eu não estava entendendo nada. Por sorte, a criatura teve a gentileza de me explicar o caso. Ou seja, que um outro dia, na última sexta-feira, logo após o almoço, ele, funcionário da Biblioteca do Senado Federal, tinha dado uma escapadinha pra se divertir um pouco num puteiro ali bem pertinho do Palácio Monroe. Cansado de bater carimbo, tinha decidido que sua semana ia terminar mais cedo — e entre as pernas de uma das putas mais desejadas que a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro já viu, senhoras e senhores. Bom, mas nem preciso dizer seu nome, na certa o amigo conhece Madame Pompadour. Taí, apesar de seu absoluto mal gosto pra peruca, e alguém se sai bem com esse negócio?, até que o Dr. Evilásio não me é um sujeito de todo antipático.
— Comeu a Madame Pompadour, aquele mulherão, e faz essa cara de cachorro que caiu de mudança? Não estou entendendo, doutor.
— O problema é que a sacana aprontou comigo, está sabendo? Me fodeu.
— Ué... E não era pra ser o contrário?
— Pois foi exatamente o que a cretina fez.
Pronto, depois desse comentário já fui me preparando pra ouvir uma dessas histórias bizarras, mas não era nada do gênero.
— A filha da mãe afanou minha peruca. Nega. Diz que não. Mas que afanou, afanou.
— Peruca? Do que o senhor está falando? Então não está com a dita cuja aí na sua cabeça?
— Se fosse essa não ia ter problema algum, eu não daria a mínima, está sabendo? O problema é que a messalina afanou a outra. Essa que eu falei.
Fiquei besta, com a cara no chão. É cada tipinho que me aparece. Bom, tomara que eu ganhe algum por aturar essa anta.
— Essa tal que é uma obra de arte?
— A própria! Devo ter bebido além da conta porque saí de lá sem perceber que estava sem minha peruca... E a vagabunda continua negando que esteja com ela, vê se pode?
E pensar que a administração pública está cheia de tipinhos como esse. Quero só ver se com essa fauna por perto o Juscelino faz mesmo cinqüenta anos em cinco.
— Sei... O senhor acha que Madame Pompadour escondeu tua peruca... E pra que, meu Deus do céu?
— Pra me chantagear, carambolas. Aliás, me antecipei e até já lhe ofereci algum, mesmo assim ela insiste em dizer que não está com a peruca. Mas aposto que só não aceitou minha oferta porque depois vai me pedir muito mais. Na certa vai começar a me apertar quando a Izildinha voltar de viagem.
— Izildinha?
— A minha senhora. Que vergonha, meu Deus, então ela vai enterrar uma tia lá no Mato Grosso e eu vou pra esbórnia? Se arrependimento matasse...
— Mas o que o senhor quer que eu faça?
— O senhor precisa recuperar minha peruca antes dela voltar, a Izildinha vai ter um ataque se descobrir que o presente que ela me deu em nosso casamento está nas mãos de uma prostituta. Ela tem adoração por essa peruca, acho até que gosta mais dela que de mim, sabia? Isso sem falar no coração. O coração da Izildinha não vai agüentar esse tranco.
— Coração? Não brinca.
— Tem um coração de passarinho, coitada. Ela não vai agüentar. Não vai agüentar.
Se a mulher dele ia agüentar ou não eu não sabia. Nem me interessava. O importante é que o homem estava em pânico, garantia de que eu tinha arranjado um cliente. Ia ganhar algum, pra encurtar. Ah, e se a besta concordasse com minha “linha de investigação” eu ia passar a noite na orgia. Sim, isso mesmo, na casa de Madame Pompadour!
E ele concordou! Concordou e deu toda a gaita que eu pedi.
— O senhor só não me saia de lá sem minha peruca, pelo amor de Deus — implorou.
— Fica tranqüilo. Relaxa que amanhã ela vai estar na sua cabeça.


O ALIADO

Claro que pra uma operação de resgate complexa como aquela eu teria que contar com algum apoio, por isso meia hora mais tarde, no boteco do Mossoró, estava convocando o homem certo para me apoiar na operação. Por sorte, obtive imediata, diria até entusiasta, oferta de ajuda.
— Uma farra na casa de Madame Pompadour?! Ainda não estou acreditando. Meu amigo!! Você é meu amigo. Meu melhor amigo, sabia? Posso te dar um abraço, posso?
Claro, talvez a natureza da visita à casa de Madame Pompadour não tenha ficado tão clara assim pro Bonitão.
— Farra? Está maluco? – o bom líder precisa ser meio duro às vezes — Não tem farra nenhuma, nós vamos até lá a trabalho, a trabalho!, o senhor não se esqueça.
— Mas encontrar essa peruca vai ser como procurar agulha num puteiro... Ops!... Num palheiro, quero dizer!
— Se você não vier vou ter que pedir ajuda pra outra pessoa. Acho que o Paranhos ia gostar de me dar uma mãozinha...
— O Paranhos? E o Paranhos está à altura de um desafio desses? O que ele ia fazer lá? Dar porrada nas putas até alguma delas confessar onde escondeu a tal peruca?
Não posso negar que Bonitão estava certo, o método de investigação do detetive Paranhos não era mesmo o mais indicado praquela missão.
— Olha, não estou dizendo que você não vá poder se divertir... Mas não pode ficar só na bandalheira e se esquecer do que foi fazer lá, compreendeu?
— E eu vou me esquecer? De jeito nenhum. Saiba que vou fundo nessa investigação, viu? Vou entrar de sola, rasgando, com tudo mesmo. Você vai ficar orgulhoso de mim.


EM TERRITÓRIO INIMIGO

Quando chegamos à casa de Madame Pompadour e fomos cercados por um bando de lulus, desirees e outras delícias francesas, achei prudente fazer um pequeno lembrete ao Bonitão:
— Você está sendo bem pago pra mostrar serviço, hein? – fui bem claro, não deixei margem pra mal entendidos — Não podemos sair daqui sem a peruca do Dr. Evilásio.
Acho que o recado foi bem compreendido, porque quando umas pequenas arrastaram Bonitão prum canto, ele garantiu que não ia me decepcionar.
Meu amigo realmente se esforçou. E se não suou a camisa como prometeu foi porque em menos de um minuto já estava sem ela. Se alguma dessas pequenas estiver com peruca do Dr. Evilásio ele vai descobrir.
Então a voz da puta mais desejada do Rio de Janeiro ecoou as minhas costas. E com sotaque francês, que é a língua oficial da safadeza. É ou não é?
— O cavalheirro gosta de observarr?
“E quem não gosta?”, eu poderia ter dito, mas falar o quê, diante daquelas tetas maravilhosas que lutavam mais que os mais empedernidos membros da resistência, tentando escapar dos limites do generoso decote de Madame Pompadour? Mas não fiquei totalmente sem fala:
— Por quê? Por acaso quer me mostrar alguma coisa, madame?
E ela, com todo o despudor de uma legítima puta francesa:
— Tudo o que o cavalheirro quiserr. Tudo.
Então, sem mais palavras, me apanhou pelo braço e me levou ao centro nervoso de seu império absolutista – a suíte Versalhes. Enquanto subíamos as escadas, pude ver que Bonitão estava bastante empenhado em arrancar a verdade das meninas de Madame Pompadour. Aliás, se ainda havia algo a ser arrancado delas era só a verdade mesmo, porque as roupas elas já tinham perdido totalmente. Bem, mas a missão de meu amigo até que era simples, ele estava lidando com a plebe. Eu não, senhores, daqui a pouco vou estar frente a frente, além de por cima e por baixo, com a soberana do palácio. Vai ser uma briga dura, duríssima, mas tenho uma missão a cumprir e não estou disposto a falhar.


PERRUQUINHA

Foi durante uma pausa, um pequeno armistício, em meio à batalha que perguntei pela peruca. E ela, bem safada:
— Perruca? Quer ver minha ‘perruquinha’, é isso? Eu mostro, monsieur, eu mostro.
Mas o que não faz uma mulher bem comida?! Abriu a guarda, sem a menor resistência. Aí eu avancei:
— Mostrar? Só mostrar? É pouco!! Pois saiba que eu não saio daqui sem ela.
— Mesmo? Ulala! Hummm... Enton esperra um minutinho só que vou apanhar ‘um’ navalha...
Navalha? Foi isso o que ela falou?
— O quê? Uma navalha? Nem pensar. Mas nem pensar mesmo!!! Quero a peruca sã e salva, compreendeste? Se acontecer alguma coisa com ela o Dr. Evilásio tem um negócio. Ah, e a mulher dele morre no ato. Batata!
— Como assim? Mas... O que o Dr. Evilásio tem a ver com minha ‘perruquinha’, posso saber? — e levando a mão à testa, aborrecida — Non! Non! Mil vezes non!! Enton é isso? — Daí o sotaque francês foi pras cucuias — Então foi aquela besta que te mandou, malandro? Foi?
— Madam?...
— Madame uma pinóia. Vamos parar com essa palhaçada, faz favor, que eu sou é de Cascadura, com muito orgulho.
— É que... É que...
— Eu sei. Eu sei. A anta botou na cabeça que estou com aquela peruca ridícula, que vou chantagear e o escambau. Olha aqui, meu senhor, presta atenção, esse homem é louco, compreendeste? Maluco de pai e mãe.
Acontece que o assunto não era se o Evilásio era maluco ou não: era sobre o roubo da peruca do homem. Tentei, eufemisticamente, voltar ao assunto:
— Ele disse que a senhora ficou com a peruca dele... Quer dizer... – resolvi ser direto: — Que a senhora roubou, é isso mesmo!, roubou a peruca dele!
— Eu? Mas de onde o infeliz tirou essa idéia? Pra que eu ia querer aquele negócio asqueroso? Só tirei aquela coisa da cabeça dele porque não consigo transar com homem de peruca. Simplesmente não consigo.
— Eu...
— Olha, eu topo qualquer negócio. Eu sou profissional, meu senhor. Agora, sujeito de peruca não dá. Aquele troço tira minha concentração, está me entendendo? Não dá pra fazer um trabalho decente olhando praquele ninho de urubu balançando na cabeça do cidadão. E com peruca fedida então é que não dá mesmo. Aí não tem cristão que agüente!!


JOGANDO A TOALHA

Dr. Evilásio, sempre se desentendendo com sua peruca, reagiu mal ao meu relatório:
— Não? Mas como não?
— Não está com ela, estou lhe dizendo.
A irritação do homem era crescente:
— Quer dizer então que o senhor gasta meu dinheiro, uma grana preta aliás, fazendo trottoir na casa de Madame Pompadour e ainda vem me dizer que a messalina não está com minha peruca? Então eu não a vi jogando ela atrás do biombo?
Apontei pra coisa que se equilibrava na cabeça dele e disparei:
— Só pra não ter que transar olhando pra uma dessas aberrações que careca enfia na cabeça.
E ele, ofendidíssimo:
— O quê? Mas se no outro dia o senhor disse que nem notou...
Fui cem por cento sincero:
— Eu estava mentindo. Olha, e a Madame falou que te devolveu a peruca, que te viu sair de lá com ela na cabeça. Falou que tem certeza.
— E o senhor acreditou nela, foi?
— Ela estava falando a verdade, posso lhe afirmar.
— A verdade... — a anta de peruca explode: — Mas o senhor é um detetive ou um escoteiro?
— Um detetive. E sou muito bom no que faço, está me compreendendo? Sei quando estão mentindo pra mim. Tenho faro pra história mal contada, está me entendendo?
Então ele, curioso:
— E seu faro?...
— Meu diz que a piranha está sendo sincera. Cem por cento.
— Será?... Eu... Bem... Eu devo mesmo ter bebido um pouco além da conta naquele dia, mas...
— Então. E o doutor sabe que peruca de bêbado não tem dono. Ó, vai ver ela caiu sei lá onde, no meio da rua, e o senhor nem notou...
Aí a anta de peruca resolve aceitar a realidade. E ia fazer o que, não é mesmo? Tento animá-lo:
— Força, doutor. Peruca é que nem copa do mundo, ninguém morre só porque perde uma, é ou não é?
Então me lembro do coração de passarinho da mulher da anta e percebo que não foi boa idéia falar em morte.
E ele, arrasado, ao deixar meu escritório:
— A Izildinha vai ter um troço... Presente de casamento... Era louca por aquela peruca...


UM DEUS

Em um restaurante discreto, fora do circuito em que circula socialmente, Izilda Albuquerque, mulher de uns 50 anos, muito bonita, está tomando um suco de cenoura quando a prostituta conhecida como Madame Pompadour entra, trazendo um pequeno pacote nas mãos, e vai até sua mesa.
— E então? – Izilda pergunta, tentando controlar sua ansiedade.
A prostituta entrega o pacote à outra.
— Aqui dentro. Posso me sentar?
O convite é frio:
— Faz favor.
— Sabe, estive pensando... – começa a prostituta.
É interrompida sumariamente:
— Quer mais dinheiro é?
— Não. O que combinamos está bom – e sem encontrar as palavras: — É que...
— Sim?
— É que vão uns colegas de trabalho do seu marido lá na minha casa...
— Imagino que sim. E daí?
— Eles disseram que ele não tem ido trabalhar, que anda doente.
Izilda, com sádico, porém discreto, prazer:
— Muito doente, se você quer saber. Olha, não sei não... Se continuar assim...
— É porque perdeu a peruca que a senhora gosta tanto... O detetive, o tal que foi contratado pra encontrá-la, disse que o Dr. Evilásio está preocupado demais com o coração da senhora...
— Por quê? Meu coração está que é uma beleza – cínica: —, já o dele não está tão bom assim.
A prostituta desabafa:
— Estou arrependida, dona Izilda.
— Ora, faz favor. Arrependida de ganhar dinheiro?
A prostituta conhece as pessoas, sabe que não adianta expor seu remorso para alguém como Izilda Albuquerque. Decide ir embora, mas antes precisa perguntar:
— O que a senhora vai fazer com ela? – apontando para a peruca, dentro do pacote.
— Vou dar de presente.
— Presente?
Izilda Albuquerque apanha uma foto dentro de sua bolsa e a exibe para a outra.
— Não é um Apolo?
A prostituta não poderia descrever o belo exemplar do sexo masculino com maior exatidão.
— Que homem lindo! E careca... Que coincidência. É dos carecas que a senhora gosta mais?
E Izilda, enigmática, com a mão sobre o pacote:
— Da peruca.
— O quê?...
— É da peruca que eu gosto — discretamente safada: — Do que está embaixo dela também, é claro. — torna a acariciar o pacote — Essa peruca é um espetáculo, não é?
— Bonita, sim. Nem parece peruca.
— Então?! Um crime ficar na cabeça de uma anta que nem o Evilásio – e continua, mas falando com a peruca agora: — Finalmente encontrei uma careca à sua altura...
E vendo que Madame Pompadour se levanta:
— Já vai?
Sim, a prostitua está de saída, mas antes ainda aconselha:
— A senhora pensa bem no que está fazendo...
Izilda Albuquerque não lhe dá ouvidos, toda sua atenção está voltada para a peruca.
— Essa noite... Essa noite você vai cobrir a careca de um deus, sabia? Uma careca à sua altura. À sua altura.

Matando um amigo

O Santos quer porque quer saber por onde anda o Bonitão. Andou perguntando pra todo mundo. Jurou dar um tiro nas fuças do Don Juan e coisa e tal. Agita a foto do garanhão, que encontrou na bolsa da mulher, ameaça rasgá-la, quase rasga, se arrepende e em seguida a leva até bem perto dos olhos (o homem é cego como uma toupeira), se esforça para fixar a imagem do "inimigo da família", do "tarado".
— Ele é seu amigo, não é? — não sei quem havia dito pra ele que se alguém sabia do Bonitão esse alguém era eu. — Onde ele está, seu Zózimo? Cadê o infeliz?
A fera não vai sossegar enquanto não mandar o Bonitão pro Caju. Está escrito. Destino! Nem adianta tentar enrolar, dizer que não sei por onde ele anda, que não o vejo há muito tempo, essas coisas. Nada do que eu disser vai salvar o couro do libertino. Sem falar que ficando calado não ganho o dinheiro que o Santos está oferecendo por uma pista do amante de sua cara-metade. E assim que dou o endereço do futuro defunto, Santos cospe a proposta na minha cara.
— Te pago o dobro pra você acabar com ele!
— Peraí! O Bonitão é meu amigo...
— Então?! Assim fica mais fácil...
Nem adianta discutir, o corno quer serviço completo: barba, cabelo e bigode. Fazer o quê?
— Tudo bem... Mas vai sair mais caro!
Aos berros de "mata!", "mata!", a toupeira dobra a oferta. Não dá pra resistir a tanta gaita, vou matar um amigo.


O GRANDE MENTIROSO

Bonitão reage com incompreensível alívio quando lhe digo que o Santos pagou uma grana preta pra eu acabar com ele.
— Um irmão! Mais... Mais do que um irmão, Zózimo! Ufa! Se fosse outro o Zezinhho aqui já tinha vestido o paletó de madeira...
Preciso ser bem claro com ele:
— Mas você vai morrer. Aliás, já está morto. Mortíssimo! Pensa: dei minha palavra pro homem, aceitei o dinheiro do homem... Não tem outro jeito, vou ter que matar. Sou profissional!
Então o garanhão entra em um pânico absolutamente compreensível:
— N-não! Não faça isso comigo... Olha, tem a minha mãe. O que vai ser da minha mãe se não mando o dinheiro pro tratamento dela?
— Mãe doente? Outro dia mesmo você me falou que sua mãe é forte que nem um touro.
— Pois então... E é mesmo. E é mesmo, graças a Deus... Se não fosse já tinha morrido. A coitada tem tuberculose. Está internada, fazendo tratamento numa clínica lá em Campos do Jordão.
Mentira. Sei que é mentira, mas admiro quem sabe mentir, quem faz da mentira uma obra de arte. E o Bonitão é um artista.
— Não me mate! Pelo amor de Deus! Pela alma da minha mãe... Pela alma da minha mãe!!
— Vou matar e ponto final. Então não sou um profissional?!


COM AMOR, DA SUA FIFIZINHA

A toupeira me passa o dinheiro, depois apanha a foto, leva até bem perto dos olhos e dá uma gargalhada.
— Come! Come agora, canalha!
E aí me diz que perdoou a mulher, "uma vítima do tarado". E me encarando (tentando), do fundo das grossas lentes e meio pergunta, meio ameaça:
— Matou mesmo? Batata? Olha que vou guardar essa foto, ela vai estar sempre no meu bolso, se dia desses esbarrar com esse infeliz aí pela rua, você morre.
— Pára! Pára que desse jeito o senhor me ofende. Eu sou um profissional, está sabendo? Um profissional! Pode confiar...
Ele se dá por satisfeito, me passa o resto do pagamento e se levanta para ir embora. Eu o acompanho até a saída do boteco do Mossoró, onde nos reunimos.
— Sabe que eu gostava dele? Engraçado... O senhor odeia o homem e está com uma foto dele aí na sua carteira. Já eu, que fui amigo do Bonitão, não tenho nem uma lembrança dele. Será que posso dar uma última olhada aí na sua fotografia? Coisa rápida... Sabe, é que me incomoda a última lembrança que tenho do infeliz, me encarando daquele jeito, com a cara cheia de buraco de bala.
A toupeira me passa a foto.
— Uma olhadinha, ouviste? Só uma olhadinha.
Nem tomo cuidado quando substituo a foto do Bonitão por uma outra, de um tipo até bem parecido com ele, o Rocha, morto há uns dois anos, durante um assalto em Cosme Velho, o Santos não é capaz de enxergar um elefante a dois passos do nariz.
Dou foto pra toupeira e ela vai embora, triunfante, atropelando todos os postes do caminho. Fico algum tempo ainda olhando o infeliz sumir pros lados da Carolina Machado, daí peço uma Brahma ao Mossoró, a primeira delas – hoje a esbórnia é por conta do ‘falecido’.

Chanchada noir

Na chanchada noir o buraco é mais embaixo. Pode esquecer o (anti) herói do noir americano, esse dramático que se arrasta pela trama tentando cínica e inutilmente esconder o existencialista que habita em suas entranhas. Esqueça a ética chandleriana de Philip Marlowe e divirta-se com as aventuras tropicais de Zózimo Barbosa, o canalhíssimo detetive de terceira classe especializado em investigar a velha e boa infidelidade conjugal.