Um sujeito aí, um tipo que apareceu em Madureira outro dia, saiu com uma pequena do harém do Bonitão, a Eunice. Isso transformava nosso Porfírio Rubirosa num corno? Era sobre isso que estávamos discutindo aquela noite, no boteco do Mossoró.
— Cornudo, claro. Batata — disse alguém.
— Mas o que é isso? E desde quando amante é corno? — retrucou um outro.
— Concordo. Chifre é coisa de marido, namorado ou amasiado – emendou qualquer um. — Se você não é nem uma coisa nem outra não tem como ser corno.
Até o Mossoró deu palpite:
— Pois eu diria que o amante é sempre um corno. No mínimo do marido, do titular.
Foi quando eu, voltando do banheiro, perguntei ao Paranhos, assim que me sentei à nossa mesa:
— E aí? É corno ou não é corno?
E ele, misterioso:
— A questão não é essa.
Todos olharam pro Paranhos, esperando que ele fosse mais claro, completasse o raciocínio, mas o policial permaneceu em silêncio, pensativo.
— E qual é a questão, carambolas? – provoquei.
E ele, assumindo ar de detetive de filme inglês:
— A questão é que o Bonitão foi alvo de um ataque inimigo.
A VÍTIMA
Mais tarde, ainda naquela noite, no conjugado do Bonitão, concluí que o Paranhos estava certo, coberto de razão. Alguém havia declarado guerra ao malandro e seu orgulho tinha sido a primeira vítima do conflito.
— Vivia aqui, ó!! — dizia, arrasado, olhando pra palma da mão. — Era eu estalar o dedo que ela deixava o marido chupando um Chicabon pra vir atrás de mim.
E dava pra ver que era uma questão de orgulho mesmo, que não tinha nada a ver com o fato da Eunice dar presentinhos caros pra ele, de pagar o aluguel do seu conjugado.
Descontrolado, se levantou repentinamente e caminhou até a porta, querendo sair – e não era em missão de paz. Eu não deixei.
— Eu mato esse cara! — ameaça. — Eu mato esse cara!!
— Ei, calma, muita calma nessa hora.
O ÚLTIMO A SABER
O inimigo se chamava Valadão. Pintoso, bom de papo e desocupado, avançava sem pena nem dó pelo território do Bonitão, conquistando posições estratégicas. Aliás, o avanço inimigo era o assunto do dia seguinte, outra vez no boteco do Mossoró.
— A Judite? Essa não é aquela boazuda, a mulher do farmacêutico? — alguém quis saber.
— Essa mesmo — informou outro alguém. — O tal Valadão está papando. Todo mundo está sabendo, menos o marido. O marido e o Bonitão, coitado.
GENERAL PARANHOS
Bonitão, que só não foi o último a saber porque essa honra pertence ao marido, queria matar, queria dar tiro. Quase teve um piripaque. Foi salvo por mim e pelo Paranhos, que, voluntário na tomada de Monte Castelo, tinha idéias claras sobre como conduzir uma guerra:
— Não adianta dar chilique. O negócio é impedir o avanço inimigo. Diz pra mim: o que você sabe sobre esse Valadão?
— Como assim o que eu sei sobre ele? Que o filho da mãe está deitando e rolando no galinheiro do Zezinho aqui, é isso o que eu sei sobre ele.
— Você e toda a torcida do Flamengo. Mas isso não é importante... Importante é conhecer o inimigo, é saber quem ele é, de onde ele vem.
— E de onde ele vem, carambolas? – quis saber o Bonitão.
E o Paranhos, transpirando vaidade profissional:
— De Copacabana. Vem de Copacabana, andei investigando. Um filho da mãe igual a você, desocupado que nem você. Só que com dinheiro. A mãe é viúva de um oficial da marinha. O negócio dele é gastar a aposentadoria da velha.
— E agora que a gente sabe quem ele é, faz o quê? – perguntei ao ‘general’ Paranhos.
— É, o que a gente faz? – Bonitão reforçou. E meio que perguntou, meio que sugeriu: — Matamos ele?
UM BOM LUGAR PARA GUERREAR: COPACABANA
Não matamos ninguém. Fomos passear em Copacabana.
— Traremos a guerra pra casa do inimigo, que é onde o sangue deve jorrar — discursou Paranhos, enquanto eu estacionava onde ele ordenou e de onde dava pra ver uma pequena sensacional vindo da praia.
— Mas que coincidência boa – comemorou Paranhos, apontando justo pra pequena que eu estava fotografando. — Olha lá... A noiva do Valadão. Ela passa o tempo todo na praia...
— Noiva do Valadão? — indagou Bonitão, interessado. — Papagaio.
O plano do Paranhos era, por incrível que pareça, dos mais geniais:
— Eu, se fosse você, atacava com tudo, não deixava sobreviventes.
E eu apoiei:
— Isso! Às favas com a convenção de Genebra.
O DESEMBARQUE
Quem visse, ao longo dos dias seguintes, Bonitão se aproximando da noiva do Valadão, todo simpático e generoso, com um Chicabon sempre à mão, não poderia imaginar que estava presenciando uma operação de guerra muito mais sangrenta que o desembarque aliado à costa da Normandia. E quando ele atacou pra valer, fez gato e sapato atrás das linhas inimigas.
— Ai... Assim você me mata. Assim você acaba comigo — gemia a noiva do Valadão, enquanto Bonitão despejava todas as suas bombas por entre as pernas da pobrezinha.
DECLARAÇÃO DE GUERRA
Depois foi só esperar o inimigo vir até nosso QG, no bar do Mossoró, assinar a rendição. Ele veio mesmo, mas nem pensava em rendição. Muito pelo contrário. E bota pelo contrário nisso!!
— Qualquer uma, mas qualquer uma mesmo. No duro, ouviu? Eu pego qualquer uma... Você me diz qual é que eu pego...
Resumindo: Valadão disse que comeria toda e qualquer amante do Bonitão. Que se não conseguisse não botava mais os pés em Madureira. Mas pra cada uma que ele pegasse Bonitão teria que conquistar uma posição em Copacabana, digamos assim. E ao primeiro fracasso, além de depor as armas, o derrotado teria que abrir suas fronteiras pro inimigo.
— Sem impor condições! — desafiou. — O vencedor pode pintar o caneco.
Quem foi que disse que o Bonitão tinha medo de ir pra guerra?
— Eu topo — disse, apertando a mão do inimigo.
TUDO NOVO NO FRONT
Pelos dias seguintes a batalha foi dura, encarniçada, posições iam sendo conquistadas de lado a lado e não havia a menor esperança de paz. Todo dia havia algo de novo no front. Mas Bonitão, apesar dos sucessos no campo de batalha, parecia ligeiramente deprimido.
— Está reclamando do quê? — perguntei. — Aposto e ganho que nunca comeste tanto.
E ele, sério:
— É. Mas jurava que o tal Valadão não ia papar tanto e tão fácil no galinheiro do Zezinho aqui.
— Ofendido por suas amantes traírem seus maridos com outro cara além de você? Falando no outro...
Ele mesmo, Valadão, o inimigo, adentrava o bar do Mossoró, onde estávamos Bonitão e eu. Cínico, veio direto a nossa mesa e entregou um ursinho de pelúcia pro Bonitão.
— Conhece? — provocou.
Fiz ao Bonitão uma pergunta cuja resposta já conhecia:
— Comeu?
E ele:
— Comeu! — e me passando o ursinho de pelúcia — Eu que dei de presente pra Odete.
— Foi moleza — zombou Valadão. — Mas sei de uma lá em Copacabana que você não papa. Sabe como é, mulher bem comida...
— O nome. Dá o nome da pequena e vamos ver.
UM GENTLEMAN
A posição a ser conquistada era uma tal Magda, pequena que vivia no prédio do Valadão. Ao contrário do que fora alardeado pelo inimigo, um alvo fácil. Não demorou muito, Bonitão já tinha comido e estava de saída do apartamento dela.
— Quer mesmo? No duro? — Magda gemeu, entregando uma fotografia pro garanhão. — Pra quê?
E ele:
— Pra te ter sempre perto do meu coração.
Daí a pouco, após se desvencilhar da pequena, está esperando o elevador. Quando a porta se abre, uma mulher de uns cinqüenta anos, muito bonita, sai lá de dentro, carregando muitas sacolas. Deixa uma delas cair.
Ele:
— Opa. Deixa que eu pego.
Ela:
— Muito obrigada, não precisa.
Ele:
— Que isso... É um prazer. Posso levar até seu apartamento?
Ela, encantada:
— Ah, faz favor? É o 608, ali no fim do corredor.
No minuto seguinte estão diante do apartamento dela.
— Quanta gentileza... Não tem mais disso hoje em dia não. Meu falecido, que era da marinha, também era assim sabe? Um gentleman.
Ela abre a porta do apartamento e eles entram. E o Bonitão, que ficou um tempão lá dentro, foi um gentleman com ela.
RENDIÇÃO
No dia seguinte, quando Bonitão jogou a foto da Magda sobre a mesa, Valadão tentou minimizar o feito do adversário:
— Também essazinha aí vai com qualquer um... Alvo fácil!
— Bota fácil nisso — concordou Bonitão. — Tava carente, coitadinha — e virando-se pra mim e pro Paranhos — Sabem como é, mulher mal comida se entrega fácil. Que nem francês quando alemão cisma de falar grosso.
Valadão se irritou um pouco:
— E agora, quem eu vou ter que papar? Uma bem difícil, faz favor.
E Bonitão, muito calmo, como se não estivesse no meio de uma guerra:
— Uma dona lá de Copacabana mesmo... Você nem vai ter que sair do teu prédio.
— No meu prédio?
— É. Mas essa eu acho que você ainda não papou.
E atira sobre a mesa uma foto onde a mãe do Valadão aparece em companhia do falecido marido.
— A foto é antiga, mas ela ainda dá um caldo — e, como na foto o pai de Valadão aparecia com sua farda de oficial da marinha, complementa: — Vai tranqüilo que o milico já empacotou!
Valadão quase infarta ao reconhecer o casal da foto.
— Mã... Mamãe...
Parte pra cima de Bonitão, agarra o inimigo pela camisa.
— Você nunca mais... Mas você nunca mais mesmo...
Paranhos precisa segurar Valadão pra ele soltar Bonitão. Apanho a foto da mãe de Valadão, esquecida sobre a mesa, e devoro a coroa com os olhos. Ela era muito boa mesmo.
E o Paranhos, empurrando Valadão:
— Fica quieto aí, elemento. Querendo levar um catiripapo, está?
E o filho daquela mãe sensacional grita pro Bonitão, com a promessa de morte no olhar:
— Nunca mais, ouviu?
— Nunca mais o quê? — devolve o garanhão. — Eu papar a tua mãe? Olha, se você parar de ciscar no meu galinheiro...
Valadão entendeu o recado e capitulou. Entregou a guerra sem negociar a rendição. Levantou-se pra ir embora, bruscamente. E já estava quase na porta do boteco quando voltou pra recuperar a foto dos pais. Precisou arrancá-la da minha mão. Daí foi embora. E nunca mais botou os pés em Madureira.
E o Bonitão, como se não tivesse vencido a terceira guerra mundial, gritou pro Mossoró:
— Vê uma aqui, ó. Uma bem gelada.
8.27.2009
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