Dr. Evilásio tinha chegado já há um bom tempo ao meu escritório, exatamente no horário marcado, mas ainda não havia dito nada além de um rápido e nervoso ‘boa tarde, seu Zózimo’. A criatura, desde a chegada, lutava pra ajustar à cabeça uma das perucas mais horripilantes já vistas sobre a face da terra. Puxava pra um lado e pro outro, pra cima e pra baixo. Então, finalmente, graças a Deus!, cansado de perder a briga pra peruca, que continuava tão horrível quanto claramente desconfortável na sua careca, rompeu o silêncio:
— O meu problema é a peruca, entende? – declarou, como se fosse preciso.
Aquele não era um bom momento pra esgrimir com minha sinceridade. Aliás, nunca é, não é verdade?
— Peruca? Está usando uma peruca? Eu nem tinha percebido. Olha, se o senhor não fala...
Não disse? Olha como o homem ficou feliz. Incrível como as pessoas gostam de ser enganadas.
— Que é isso? Dá pra notar sim — e bem idiota, completamente idiota —, se a pessoa prestar muita atenção, é claro. Mas estou falando é da outra. Aquela sim é que é uma maravilha, uma obra de arte, está compreendendo?
Não. Definitivamente eu não estava entendendo nada. Por sorte, a criatura teve a gentileza de me explicar o caso. Ou seja, que um outro dia, na última sexta-feira, logo após o almoço, ele, funcionário da Biblioteca do Senado Federal, tinha dado uma escapadinha pra se divertir um pouco num puteiro ali bem pertinho do Palácio Monroe. Cansado de bater carimbo, tinha decidido que sua semana ia terminar mais cedo — e entre as pernas de uma das putas mais desejadas que a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro já viu, senhoras e senhores. Bom, mas nem preciso dizer seu nome, na certa o amigo conhece Madame Pompadour. Taí, apesar de seu absoluto mal gosto pra peruca, e alguém se sai bem com esse negócio?, até que o Dr. Evilásio não me é um sujeito de todo antipático.
— Comeu a Madame Pompadour, aquele mulherão, e faz essa cara de cachorro que caiu de mudança? Não estou entendendo, doutor.
— O problema é que a sacana aprontou comigo, está sabendo? Me fodeu.
— Ué... E não era pra ser o contrário?
— Pois foi exatamente o que a cretina fez.
Pronto, depois desse comentário já fui me preparando pra ouvir uma dessas histórias bizarras, mas não era nada do gênero.
— A filha da mãe afanou minha peruca. Nega. Diz que não. Mas que afanou, afanou.
— Peruca? Do que o senhor está falando? Então não está com a dita cuja aí na sua cabeça?
— Se fosse essa não ia ter problema algum, eu não daria a mínima, está sabendo? O problema é que a messalina afanou a outra. Essa que eu falei.
Fiquei besta, com a cara no chão. É cada tipinho que me aparece. Bom, tomara que eu ganhe algum por aturar essa anta.
— Essa tal que é uma obra de arte?
— A própria! Devo ter bebido além da conta porque saí de lá sem perceber que estava sem minha peruca... E a vagabunda continua negando que esteja com ela, vê se pode?
E pensar que a administração pública está cheia de tipinhos como esse. Quero só ver se com essa fauna por perto o Juscelino faz mesmo cinqüenta anos em cinco.
— Sei... O senhor acha que Madame Pompadour escondeu tua peruca... E pra que, meu Deus do céu?
— Pra me chantagear, carambolas. Aliás, me antecipei e até já lhe ofereci algum, mesmo assim ela insiste em dizer que não está com a peruca. Mas aposto que só não aceitou minha oferta porque depois vai me pedir muito mais. Na certa vai começar a me apertar quando a Izildinha voltar de viagem.
— Izildinha?
— A minha senhora. Que vergonha, meu Deus, então ela vai enterrar uma tia lá no Mato Grosso e eu vou pra esbórnia? Se arrependimento matasse...
— Mas o que o senhor quer que eu faça?
— O senhor precisa recuperar minha peruca antes dela voltar, a Izildinha vai ter um ataque se descobrir que o presente que ela me deu em nosso casamento está nas mãos de uma prostituta. Ela tem adoração por essa peruca, acho até que gosta mais dela que de mim, sabia? Isso sem falar no coração. O coração da Izildinha não vai agüentar esse tranco.
— Coração? Não brinca.
— Tem um coração de passarinho, coitada. Ela não vai agüentar. Não vai agüentar.
Se a mulher dele ia agüentar ou não eu não sabia. Nem me interessava. O importante é que o homem estava em pânico, garantia de que eu tinha arranjado um cliente. Ia ganhar algum, pra encurtar. Ah, e se a besta concordasse com minha “linha de investigação” eu ia passar a noite na orgia. Sim, isso mesmo, na casa de Madame Pompadour!
E ele concordou! Concordou e deu toda a gaita que eu pedi.
— O senhor só não me saia de lá sem minha peruca, pelo amor de Deus — implorou.
— Fica tranqüilo. Relaxa que amanhã ela vai estar na sua cabeça.
O ALIADO
Claro que pra uma operação de resgate complexa como aquela eu teria que contar com algum apoio, por isso meia hora mais tarde, no boteco do Mossoró, estava convocando o homem certo para me apoiar na operação. Por sorte, obtive imediata, diria até entusiasta, oferta de ajuda.
— Uma farra na casa de Madame Pompadour?! Ainda não estou acreditando. Meu amigo!! Você é meu amigo. Meu melhor amigo, sabia? Posso te dar um abraço, posso?
Claro, talvez a natureza da visita à casa de Madame Pompadour não tenha ficado tão clara assim pro Bonitão.
— Farra? Está maluco? – o bom líder precisa ser meio duro às vezes — Não tem farra nenhuma, nós vamos até lá a trabalho, a trabalho!, o senhor não se esqueça.
— Mas encontrar essa peruca vai ser como procurar agulha num puteiro... Ops!... Num palheiro, quero dizer!
— Se você não vier vou ter que pedir ajuda pra outra pessoa. Acho que o Paranhos ia gostar de me dar uma mãozinha...
— O Paranhos? E o Paranhos está à altura de um desafio desses? O que ele ia fazer lá? Dar porrada nas putas até alguma delas confessar onde escondeu a tal peruca?
Não posso negar que Bonitão estava certo, o método de investigação do detetive Paranhos não era mesmo o mais indicado praquela missão.
— Olha, não estou dizendo que você não vá poder se divertir... Mas não pode ficar só na bandalheira e se esquecer do que foi fazer lá, compreendeu?
— E eu vou me esquecer? De jeito nenhum. Saiba que vou fundo nessa investigação, viu? Vou entrar de sola, rasgando, com tudo mesmo. Você vai ficar orgulhoso de mim.
EM TERRITÓRIO INIMIGO
Quando chegamos à casa de Madame Pompadour e fomos cercados por um bando de lulus, desirees e outras delícias francesas, achei prudente fazer um pequeno lembrete ao Bonitão:
— Você está sendo bem pago pra mostrar serviço, hein? – fui bem claro, não deixei margem pra mal entendidos — Não podemos sair daqui sem a peruca do Dr. Evilásio.
Acho que o recado foi bem compreendido, porque quando umas pequenas arrastaram Bonitão prum canto, ele garantiu que não ia me decepcionar.
Meu amigo realmente se esforçou. E se não suou a camisa como prometeu foi porque em menos de um minuto já estava sem ela. Se alguma dessas pequenas estiver com peruca do Dr. Evilásio ele vai descobrir.
Então a voz da puta mais desejada do Rio de Janeiro ecoou as minhas costas. E com sotaque francês, que é a língua oficial da safadeza. É ou não é?
— O cavalheirro gosta de observarr?
“E quem não gosta?”, eu poderia ter dito, mas falar o quê, diante daquelas tetas maravilhosas que lutavam mais que os mais empedernidos membros da resistência, tentando escapar dos limites do generoso decote de Madame Pompadour? Mas não fiquei totalmente sem fala:
— Por quê? Por acaso quer me mostrar alguma coisa, madame?
E ela, com todo o despudor de uma legítima puta francesa:
— Tudo o que o cavalheirro quiserr. Tudo.
Então, sem mais palavras, me apanhou pelo braço e me levou ao centro nervoso de seu império absolutista – a suíte Versalhes. Enquanto subíamos as escadas, pude ver que Bonitão estava bastante empenhado em arrancar a verdade das meninas de Madame Pompadour. Aliás, se ainda havia algo a ser arrancado delas era só a verdade mesmo, porque as roupas elas já tinham perdido totalmente. Bem, mas a missão de meu amigo até que era simples, ele estava lidando com a plebe. Eu não, senhores, daqui a pouco vou estar frente a frente, além de por cima e por baixo, com a soberana do palácio. Vai ser uma briga dura, duríssima, mas tenho uma missão a cumprir e não estou disposto a falhar.
PERRUQUINHA
Foi durante uma pausa, um pequeno armistício, em meio à batalha que perguntei pela peruca. E ela, bem safada:
— Perruca? Quer ver minha ‘perruquinha’, é isso? Eu mostro, monsieur, eu mostro.
Mas o que não faz uma mulher bem comida?! Abriu a guarda, sem a menor resistência. Aí eu avancei:
— Mostrar? Só mostrar? É pouco!! Pois saiba que eu não saio daqui sem ela.
— Mesmo? Ulala! Hummm... Enton esperra um minutinho só que vou apanhar ‘um’ navalha...
Navalha? Foi isso o que ela falou?
— O quê? Uma navalha? Nem pensar. Mas nem pensar mesmo!!! Quero a peruca sã e salva, compreendeste? Se acontecer alguma coisa com ela o Dr. Evilásio tem um negócio. Ah, e a mulher dele morre no ato. Batata!
— Como assim? Mas... O que o Dr. Evilásio tem a ver com minha ‘perruquinha’, posso saber? — e levando a mão à testa, aborrecida — Non! Non! Mil vezes non!! Enton é isso? — Daí o sotaque francês foi pras cucuias — Então foi aquela besta que te mandou, malandro? Foi?
— Madam?...
— Madame uma pinóia. Vamos parar com essa palhaçada, faz favor, que eu sou é de Cascadura, com muito orgulho.
— É que... É que...
— Eu sei. Eu sei. A anta botou na cabeça que estou com aquela peruca ridícula, que vou chantagear e o escambau. Olha aqui, meu senhor, presta atenção, esse homem é louco, compreendeste? Maluco de pai e mãe.
Acontece que o assunto não era se o Evilásio era maluco ou não: era sobre o roubo da peruca do homem. Tentei, eufemisticamente, voltar ao assunto:
— Ele disse que a senhora ficou com a peruca dele... Quer dizer... – resolvi ser direto: — Que a senhora roubou, é isso mesmo!, roubou a peruca dele!
— Eu? Mas de onde o infeliz tirou essa idéia? Pra que eu ia querer aquele negócio asqueroso? Só tirei aquela coisa da cabeça dele porque não consigo transar com homem de peruca. Simplesmente não consigo.
— Eu...
— Olha, eu topo qualquer negócio. Eu sou profissional, meu senhor. Agora, sujeito de peruca não dá. Aquele troço tira minha concentração, está me entendendo? Não dá pra fazer um trabalho decente olhando praquele ninho de urubu balançando na cabeça do cidadão. E com peruca fedida então é que não dá mesmo. Aí não tem cristão que agüente!!
JOGANDO A TOALHA
Dr. Evilásio, sempre se desentendendo com sua peruca, reagiu mal ao meu relatório:
— Não? Mas como não?
— Não está com ela, estou lhe dizendo.
A irritação do homem era crescente:
— Quer dizer então que o senhor gasta meu dinheiro, uma grana preta aliás, fazendo trottoir na casa de Madame Pompadour e ainda vem me dizer que a messalina não está com minha peruca? Então eu não a vi jogando ela atrás do biombo?
Apontei pra coisa que se equilibrava na cabeça dele e disparei:
— Só pra não ter que transar olhando pra uma dessas aberrações que careca enfia na cabeça.
E ele, ofendidíssimo:
— O quê? Mas se no outro dia o senhor disse que nem notou...
Fui cem por cento sincero:
— Eu estava mentindo. Olha, e a Madame falou que te devolveu a peruca, que te viu sair de lá com ela na cabeça. Falou que tem certeza.
— E o senhor acreditou nela, foi?
— Ela estava falando a verdade, posso lhe afirmar.
— A verdade... — a anta de peruca explode: — Mas o senhor é um detetive ou um escoteiro?
— Um detetive. E sou muito bom no que faço, está me compreendendo? Sei quando estão mentindo pra mim. Tenho faro pra história mal contada, está me entendendo?
Então ele, curioso:
— E seu faro?...
— Meu diz que a piranha está sendo sincera. Cem por cento.
— Será?... Eu... Bem... Eu devo mesmo ter bebido um pouco além da conta naquele dia, mas...
— Então. E o doutor sabe que peruca de bêbado não tem dono. Ó, vai ver ela caiu sei lá onde, no meio da rua, e o senhor nem notou...
Aí a anta de peruca resolve aceitar a realidade. E ia fazer o que, não é mesmo? Tento animá-lo:
— Força, doutor. Peruca é que nem copa do mundo, ninguém morre só porque perde uma, é ou não é?
Então me lembro do coração de passarinho da mulher da anta e percebo que não foi boa idéia falar em morte.
E ele, arrasado, ao deixar meu escritório:
— A Izildinha vai ter um troço... Presente de casamento... Era louca por aquela peruca...
UM DEUS
Em um restaurante discreto, fora do circuito em que circula socialmente, Izilda Albuquerque, mulher de uns 50 anos, muito bonita, está tomando um suco de cenoura quando a prostituta conhecida como Madame Pompadour entra, trazendo um pequeno pacote nas mãos, e vai até sua mesa.
— E então? – Izilda pergunta, tentando controlar sua ansiedade.
A prostituta entrega o pacote à outra.
— Aqui dentro. Posso me sentar?
O convite é frio:
— Faz favor.
— Sabe, estive pensando... – começa a prostituta.
É interrompida sumariamente:
— Quer mais dinheiro é?
— Não. O que combinamos está bom – e sem encontrar as palavras: — É que...
— Sim?
— É que vão uns colegas de trabalho do seu marido lá na minha casa...
— Imagino que sim. E daí?
— Eles disseram que ele não tem ido trabalhar, que anda doente.
Izilda, com sádico, porém discreto, prazer:
— Muito doente, se você quer saber. Olha, não sei não... Se continuar assim...
— É porque perdeu a peruca que a senhora gosta tanto... O detetive, o tal que foi contratado pra encontrá-la, disse que o Dr. Evilásio está preocupado demais com o coração da senhora...
— Por quê? Meu coração está que é uma beleza – cínica: —, já o dele não está tão bom assim.
A prostituta desabafa:
— Estou arrependida, dona Izilda.
— Ora, faz favor. Arrependida de ganhar dinheiro?
A prostituta conhece as pessoas, sabe que não adianta expor seu remorso para alguém como Izilda Albuquerque. Decide ir embora, mas antes precisa perguntar:
— O que a senhora vai fazer com ela? – apontando para a peruca, dentro do pacote.
— Vou dar de presente.
— Presente?
Izilda Albuquerque apanha uma foto dentro de sua bolsa e a exibe para a outra.
— Não é um Apolo?
A prostituta não poderia descrever o belo exemplar do sexo masculino com maior exatidão.
— Que homem lindo! E careca... Que coincidência. É dos carecas que a senhora gosta mais?
E Izilda, enigmática, com a mão sobre o pacote:
— Da peruca.
— O quê?...
— É da peruca que eu gosto — discretamente safada: — Do que está embaixo dela também, é claro. — torna a acariciar o pacote — Essa peruca é um espetáculo, não é?
— Bonita, sim. Nem parece peruca.
— Então?! Um crime ficar na cabeça de uma anta que nem o Evilásio – e continua, mas falando com a peruca agora: — Finalmente encontrei uma careca à sua altura...
E vendo que Madame Pompadour se levanta:
— Já vai?
Sim, a prostitua está de saída, mas antes ainda aconselha:
— A senhora pensa bem no que está fazendo...
Izilda Albuquerque não lhe dá ouvidos, toda sua atenção está voltada para a peruca.
— Essa noite... Essa noite você vai cobrir a careca de um deus, sabia? Uma careca à sua altura. À sua altura.
8.26.2009
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