8.27.2009

Em busca do tempo perdido

Uma pequena multidão acompanha o sepultamento da Dinorá. Fontes, o viúvo, geme um emocionado discurso de despedida:
— Vinte anos... Durante vinte anos estive casado com uma santa — e sob inspiração da chuvinha que começa a cair: — Mulher fiel até debaixo d´água.
Aí o Bonitão, que me obrigou a vir com ele, me dá um cutucão e fala baixinho:
— Mas ia trair, Zózimo, ia trair. E se morreu antes de botar chifre nessa besta aí foi por culpa tua, está sabendo?
— Culpa minha uma pinóia. Vai começar com essa história outra vez? Nem vem, meu filho. Nem vem.
— Tua culpa sim. Tua e daquela anta do Paranhos!! A verdade é que a santa fiel até debaixo d´água estava cansada de sua vidinha sem graça e ontem, assim que o Fontes foi pra repartição “colocar uns processos em dia”, ligou pro Zezinho aqui, está entendendo?
— Ligou?
— Então não estou lhe dizendo? Depois de vinte anos de casamento chatíssimo com essa besta orgulhosa de ser o primeiro a chegar e o último a ir embora da repartição ela tinha decidido pular a cerca. Comigo, naturalmente. E estava com uma vontade de trair que vou te contar, com a maior disposição. Quando estacionei o carro que um fulano aí me emprestou, no lugar combinado ela já estava me esperando, mais que pronta para o pecado. Ó, se eu não arranco depressa ia ter que comer ali mesmo, na esquina da Assembléia com a Rodrigo Silva.
— Papagaio.
— Mas aí o senhor melou tudo, seu Zózimo. O senhor e o Paranhos, aquela besta!!
— Não vem pra cima de mim. Nem vem. E eu podia falar não? Diz, eu podia falar não pro Paranhos, podia? Você está careca de saber que o homem não gosta de ser contrariado. E também sabe que ele queria prender o tal Cara de Cavalo. Aliás, só prender não: queria prender o meliante sozinho. Estava de olho numa promoção, eu acho. Ainda falei pra ele chamar algum colega do distrito, disse que assim era garantido, mas ele disse que “aquela era uma captura do detetive Paranhos” e que eu ia com ele só pra dar apoio moral.
— Aquela besta do Paranhos, aquele filho de uma puta. Bom, enquanto vocês se preparavam pra estragar minha festa, eu estava quase comendo a Dinorá. Quase, quase. Tinha levado ela praquela trilha no meio da mata... Aquela ali, embaixo daquele barranco alto, perto daqueles coqueirões. Estava deitando e rolando, chupando aquela boquinha...
— Canalha.
— A Dinorá estava nas nuvens, mas sabe como é, vinte anos não são vinte dias, ela não estava agüentando o tranco... Emoção demais, sabe? Tive que pegar leve, deixar a coitada respirar um pouco. E enquanto o Zezinho aqui era gentil, você e o Paranhos se preparavam pra estragar a festa!!
— Mas que culpa tenho eu se o Cara de Cavalo correu pro meio do mato assim que viu o Paranhos chegar?
— Justo pro lado que eu e a Dinorá estávamos. Papagaio! Mas nem pra vocês segurarem o filho de uma puta?
— E deu? O homem parecia ter asas nos pés, que nem aquele grego lá, aquele da mitologia, sabe qual?
— Uma ova que eu sei! Aliás, quer saber do que eu sei? Que graças a vocês a vaca do Zezinho aqui foi pro brejo.
— Sei. Eu sei, carambolas. Foi nessa hora que o Cara de Cavalo pulou do barranco e caiu bem em cima do seu carro, não foi?
— Isso! A Dinorá quase teve um troço, coitada. Entrou em pânico, pensando que era o banana do marido, vê se pode?! “O Fontes me mata! O Fontes me mata!” Como eu sabia que o corno nunca ia dar as caras por ali, imaginei que um coco tinha caído em cima do carro.
— Um coco?
— E ia pensar o quê? Ó, nem ela nem eu vimos o tal meliante. Na certa o sujeito num segundo caiu em cima do carro e no outro já tinha se embrenhado no meio da mata. Tranqüilizei a Dinorá e recomecei a festa, mas aí...
— Eu sei. Eu sei!! Aí o Paranhos e eu, na captura do elemento, também pulamos em cima do carro. Mas você tinha que estacionar justo debaixo do barranco?
— Agora a culpa é minha, é? Mas ora faça-me o favor!! Bom, aí a Dinorá saiu correndo e também se embrenhou no meio do mato. E eu fui atrás, é claro.
— E Paranhos e eu atrás do Cara de Cavalo. Mas como aquele negrinho corria, meu Deus?
— Acredita que depois disso tudo eu ainda botava fé que ia comer a Dinorá? E por que não? Então ela não estava doida pra dar? Ficava me perguntando se não era melhor a gente ir embora, dizia que devíamos ir, mas me deixava meter o chupão no pescoço, me deixava ir abrindo o vestido... Mas então, quando o Paranhos começou a atirar, aí não teve mais jeito...
— Antes ele ainda mandou o cara de Cavalo parar, nunca que íamos alcançar o sujeito. Como ele não parou...
— Acredita que a Dinorá e eu já estávamos pelados na hora do tiro? Aí foi um tal de vestir a roupa de qualquer jeito que vou te contar. Foi nessa hora...
— Eu sei. O Cara de Cavalo passou exatamente no meio da moita onde vocês estavam.
— Só ele não. Só ele não! Quando Dinorá e eu íamos nos levantando, o desgraçado tinha patrolado a gente, você e o Paranhos vêm e nos atropelam outra vez. Só então eu vi que você e aquela anta é que estavam atrapalhando a missa. Deu pra reconhecer, antes que vocês desaparecessem no meio da mata outra vez, atrás do tal Cara de Cavalo.
— E aí...
— E aí, cretino, e aí que não foi aquele o dia em que a Dinorá botou chifres no marido. Nem naquele dia, nem em nenhum outro. Depois daquele fuzuê todo não tinha mais clima. Levei a Dinorá de volta pra casa. Ela, no caminho de volta, não disse uma palavra, o coração da infeliz parecia que ia sair pela boca. Ó, ela quase desabou quando desceu do carro. Nem sei como conseguiu chegar em casa.
— Papagaio!
— Foi beijo, tiro e correria demais para quem passou os últimos vinte anos só ouvindo o marido falar do dia-a-dia na repartição. Sabia que ela, coitada!, ainda por cima tinha o coração fraco?
— Ah é, então foi o coração?
— Não te falei? Parece que foi só o tempo de entrar em casa pra ter um ataque fulminante.
— Coitada.
— Coitado do Zezinho aqui, que não comeu. Escuta... Vamos embora, não vou esperar o fim do enterro que não gosto de cemitério... Nem devia ter vindo. Vamos embora, tomar uma Brahma bem gelada. Ó, hoje você vai ter que pagar a conta.
— Eu pago. Fica frio que hoje a conta é minha.
— Sabe o que me consola, Zózimo?... É saber que o sujeito que você e aquela anta do Paranhos perseguiam conseguiu escapar.



UMA SEMANA

A cerimônia de sepultamento terminou. Um mar de flores cobre o túmulo de Dinorá. A multidão começa a ir embora e logo somente o viúvo, acompanhado de uma mulher, uma parente talvez, continua ao lado do túmulo. Então, quando estão sozinhos, num comportamento absolutamente impróprio, ele agarra a acompanhante e tenta beijá-la.
— Vem cá, Ivone, vem...
E ela, afastando-o:
— Ficou louco, meu filho? Aqui não. Vai que alguém nos veja.
— E daí? Então não sou viúvo agora? Durante vinte anos, por causa dessa sem graça, a gente teve que ficar se encontrando depois do expediente naquela merda de repartição — torna a agarrar a mulher. Da-lhe um beijo violento — Temos que recuperar o tempo perdido, oras.
— Aqui não. Que fogo!! — limpando o batom que ficou nos lábios dele — Olha o luto, meu filho, olha o luto.
— Está certo. Aqui não. Mas vamos pra minha casa agora mesmo. E vamos fazer na cama de casal, compreendeste?
— Na cama de casal? Mas como você é pervertido, Fontes! Eu... Pois eu topo. Eu topo, ouviu? Vamos botar fogo naquela cama.
E vão para a casa do viúvo. Já no carro, antes de dar a partida, ele encara a acompanhante e diz, muito sério:
— Ah, e meu luto vai durar só uma semana, está sabendo? Só uma semana. Nem um dia a mais!

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