8.26.2009

Matando um amigo

O Santos quer porque quer saber por onde anda o Bonitão. Andou perguntando pra todo mundo. Jurou dar um tiro nas fuças do Don Juan e coisa e tal. Agita a foto do garanhão, que encontrou na bolsa da mulher, ameaça rasgá-la, quase rasga, se arrepende e em seguida a leva até bem perto dos olhos (o homem é cego como uma toupeira), se esforça para fixar a imagem do "inimigo da família", do "tarado".
— Ele é seu amigo, não é? — não sei quem havia dito pra ele que se alguém sabia do Bonitão esse alguém era eu. — Onde ele está, seu Zózimo? Cadê o infeliz?
A fera não vai sossegar enquanto não mandar o Bonitão pro Caju. Está escrito. Destino! Nem adianta tentar enrolar, dizer que não sei por onde ele anda, que não o vejo há muito tempo, essas coisas. Nada do que eu disser vai salvar o couro do libertino. Sem falar que ficando calado não ganho o dinheiro que o Santos está oferecendo por uma pista do amante de sua cara-metade. E assim que dou o endereço do futuro defunto, Santos cospe a proposta na minha cara.
— Te pago o dobro pra você acabar com ele!
— Peraí! O Bonitão é meu amigo...
— Então?! Assim fica mais fácil...
Nem adianta discutir, o corno quer serviço completo: barba, cabelo e bigode. Fazer o quê?
— Tudo bem... Mas vai sair mais caro!
Aos berros de "mata!", "mata!", a toupeira dobra a oferta. Não dá pra resistir a tanta gaita, vou matar um amigo.


O GRANDE MENTIROSO

Bonitão reage com incompreensível alívio quando lhe digo que o Santos pagou uma grana preta pra eu acabar com ele.
— Um irmão! Mais... Mais do que um irmão, Zózimo! Ufa! Se fosse outro o Zezinhho aqui já tinha vestido o paletó de madeira...
Preciso ser bem claro com ele:
— Mas você vai morrer. Aliás, já está morto. Mortíssimo! Pensa: dei minha palavra pro homem, aceitei o dinheiro do homem... Não tem outro jeito, vou ter que matar. Sou profissional!
Então o garanhão entra em um pânico absolutamente compreensível:
— N-não! Não faça isso comigo... Olha, tem a minha mãe. O que vai ser da minha mãe se não mando o dinheiro pro tratamento dela?
— Mãe doente? Outro dia mesmo você me falou que sua mãe é forte que nem um touro.
— Pois então... E é mesmo. E é mesmo, graças a Deus... Se não fosse já tinha morrido. A coitada tem tuberculose. Está internada, fazendo tratamento numa clínica lá em Campos do Jordão.
Mentira. Sei que é mentira, mas admiro quem sabe mentir, quem faz da mentira uma obra de arte. E o Bonitão é um artista.
— Não me mate! Pelo amor de Deus! Pela alma da minha mãe... Pela alma da minha mãe!!
— Vou matar e ponto final. Então não sou um profissional?!


COM AMOR, DA SUA FIFIZINHA

A toupeira me passa o dinheiro, depois apanha a foto, leva até bem perto dos olhos e dá uma gargalhada.
— Come! Come agora, canalha!
E aí me diz que perdoou a mulher, "uma vítima do tarado". E me encarando (tentando), do fundo das grossas lentes e meio pergunta, meio ameaça:
— Matou mesmo? Batata? Olha que vou guardar essa foto, ela vai estar sempre no meu bolso, se dia desses esbarrar com esse infeliz aí pela rua, você morre.
— Pára! Pára que desse jeito o senhor me ofende. Eu sou um profissional, está sabendo? Um profissional! Pode confiar...
Ele se dá por satisfeito, me passa o resto do pagamento e se levanta para ir embora. Eu o acompanho até a saída do boteco do Mossoró, onde nos reunimos.
— Sabe que eu gostava dele? Engraçado... O senhor odeia o homem e está com uma foto dele aí na sua carteira. Já eu, que fui amigo do Bonitão, não tenho nem uma lembrança dele. Será que posso dar uma última olhada aí na sua fotografia? Coisa rápida... Sabe, é que me incomoda a última lembrança que tenho do infeliz, me encarando daquele jeito, com a cara cheia de buraco de bala.
A toupeira me passa a foto.
— Uma olhadinha, ouviste? Só uma olhadinha.
Nem tomo cuidado quando substituo a foto do Bonitão por uma outra, de um tipo até bem parecido com ele, o Rocha, morto há uns dois anos, durante um assalto em Cosme Velho, o Santos não é capaz de enxergar um elefante a dois passos do nariz.
Dou foto pra toupeira e ela vai embora, triunfante, atropelando todos os postes do caminho. Fico algum tempo ainda olhando o infeliz sumir pros lados da Carolina Machado, daí peço uma Brahma ao Mossoró, a primeira delas – hoje a esbórnia é por conta do ‘falecido’.

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