9.03.2009

Não é um Rembrandt!

Boteco do Mossoró, bem mais de meia-noite. Estávamos numa mesa ao lado da porta, eu, o Bonitão e o Paranhos, que tinha acabado de fazer a pergunta ao Bonitão, como se não soubesse a resposta:
— E aí?
— E aí? Como e aí? Aí o Zezinho aqui papou, carambolas! Também, o marido tava pedindo! O sujeito que vai pra Amazônia alfabetizar a bugrada e deixa um mulherão daqueles sozinho em casa está pedindo ou não está?
Estava. E eu também resolvi pedir, outra coisa é claro:
— Ô Mossoró, vê mais uma aí. Bem gelada!
— Mas tu não faz outra coisa na vida, Bonitão? — quis saber o Paranhos, indignado com a boa vida do garanhão.
— E dá tempo? Faz idéia de quanta mulher tem nesse Rio de Janeiro?
Foi nessa hora que seu Evangelista, sempre com sua bíblia debaixo do braço, entrou no boteco.
— O que vai ser, seu Evangelista? — perguntou Mossoró, já louco pra ver o homem ir embora.
— Um copo d´água, irmão. Só um copo d´água.
Enquanto Mossoró foi apanhar a água, os clientes mais próximos ao balcão recuaram, incomodados com a presença do religioso. O clima no boteco tinha mudado do vinho pra água, só Bonitão continuava agitado como antes:
— O negócio é o seguinte, Paranhos, se o Zezinho aqui for papar todo o mulherio que corre atrás dele não sobra tempo nem pro Fla-Flu.
Tive que segurar o homem:
— Agora não! Agora não!!
Seu Evangelista bebeu sua água, agradeceu e foi saindo do boteco. Mas então, quando todos já respiravam aliviados, olhou para um dos presentes, um mulatinho chamado Marinaldo, e se aproximou dele.
— Boa noite, seu Marinaldo. E sua senhora, melhorando?
— E tem jeito, seu Evangelista? Entra ano sai ano e a pobre só piorando, coitada.
— Pois o senhor não perca as esperanças. Eu vou interceder por ela nas minhas orações e com certeza Deus há de operar. O poder de Deus é soberano, seu Marinaldo. Soberaníssimo!
— Amém, seu Evangelista, Amém!
— Sabe, seu Marinaldo, o senhor é mesmo um homem de sorte.
E o Marinaldo, com uma ironia triste na voz:
— Sou, é?
— Pois não é que estou sentindo, bem forte, a presença do Altíssimo?! Aliás, Ele está falando comigo agora mesmo. Aleluia!
— É mesmo? Bem... Boa noite, seu Evangelista. Boa noite que eu já vou indo e...
— Boa noite não, que vou acompanhar o senhor até a sua casa.
— Minha casa? Mas não estou indo pra lá, seu Evangelista. Antes eu ainda tenho que resolver um assunto...
— E tem assunto mais importante que a saúde da sua senhora? Deus, seu Marinaldo, Deus está dizendo pra eu ir até sua casa operar um milagre, o senhor está me entendendo? — e antes que Marinaldo pudesse dizer alguma coisa, seu Evangelista já o empurrava pra fora do boteco. — Vamos logo, homem, vamos expulsar o demônio da enfermidade do corpo da sua senhora.
Assim que saíram o boteco tornou a ficar ruidoso. Então dei uma senhora comida de rabo no Bonitão:
— Mas o que você ia fazendo? Queria atrair o urubu pra nossa mesa, é?
— Ué?... Mas o que foi que eu fiz?
— Então você não sabe que pro seu Evangelista a alegria alheia é quase ofensa pessoal?
Paranhos reforçou:
— O que esse elemento gosta mesmo, no duro, é de topar com neguinho ruim das pernas, na pindaíba... Pra poder ‘derramar’ sua piedade sobre o infeliz.
— Isso! – concordei. — Como é que ele vai dar uma de bonzinho e piedoso se o sujeito estiver vendendo saúde, se tiver ganho no bicho?
— Eu que não preciso da generosidade dele — disse Bonitão, já se levantando. — Bom, vou indo... O Zezinho aqui vai confortar uma dona solitária... Coitada, o marido dela está de plantão hoje.
Eu:
— Vai, meu filho, vai consolar a coitadinha.
O Paranhos:
— Vai, filho da mãe.
E o Bonitão foi. Daí, aproveitado que estávamos a sós, toquei no assunto que trouxe o Paranhos ao boteco do Mossoró àquela noite:
— E teu homem, Paranhos? Quem é o tal sujeito?
— Só vou saber quando o X-9 chegar. Mas que ele é um desses aí, isso é. E aposto que vou ser promovido depois que mandar o cretino pra trás das grades.
— Já estou até vendo, na primeira página dos jornais, em letras garrafais: Sherlock de ébano desbarata quadrilha internacional!
— Só estou cumprindo com meu dever — disse Paranhos, com a falsa modéstia mais mal disfarçada do planeta.
— Então merece outra bem gelada. Vê outra aqui, Mossoró!!
Então o X-9, um sujeito muito magro e desconfiado, a cabeça enfiada num boné, entrou no boteco e foi até o balcão.
— Ó o dedo-duro aí!! Agora é ver quem ele vai alcagüetar...
Nisso, X-9 pediu uma cerveja e começou a procurar alguém entre os presentes. Olhou pra um, pra outro, pra um lado, pro outro. E aí olhou pro Paranhos, como quem diz: “Teu homem não está aqui”.
— Será que o elemento ainda não veio? Não estou gostando. O X-9 garantiu que era batata, que o sujeito está sempre por aqui...
— Calma que o Brasil é nosso! Espera um pouco que teu homem já deve estar chegando aí... Ó,toma mais uma, que essa tá supimpa!
Tomamos muitas outras e nada de o tal sujeito aparecer.
— Papagaio! O X-9 garantiu que um elemento aqui do bairro se meteu com essa quadrilha que te falei... Parece que o filho da mãe estava apertado, precisando de grana e aí deu a dica de um trabalho pra eles...
— E fez bom negócio?...
— Uma ova que fez! Ninguém bota a mão nessa quadrilha porque eles têm o hábito de dar cabo de todos que se envolvem com eles... O cara acha que está fazendo um negocião e termina no Caju, comendo capim pela raiz.
— Papagaio!!
— E periga apagarem o sujeito antes de eu botar as mãos nele... Soube que o bando contratou o Rembrandt pra fechar o paletó do pessoal que sabe demais, que pode dar com a língua nos dentes...
— Rembrandt?
— É... Chamam ele assim porque o homem é um artista. Todas as suas vítimas terminam com um buraco no meio da testa. É a assinatura dele. O sujeito, onde põe o olho põe a bala.
De repente Paranhos bateu o copo com violência sobre a mesa.
— Assim não dá, tem algo errado! Vem comigo, Zózimo!
E se levantou, foi pro banheiro. E eu com ele. Ao passar próximo ao dedo-duro fez um discreto sinal para que ele nos acompanhasse.
E me pediu, assim que o X-9 entrou no banheiro:
— Fica de olho e me avisa quando estiver vindo alguém — e partiu pra cima do X-9. — Cadê o elemento, ô infeliz? Você está brincando comigo?
— Era pra estar aqui... Ele sempre vem...
A paciência de Paranhos tinha se esgotado, estava na cara que logo ia dar um cataplum no alcagueta, eu sabia. E pela cara do X-9, ele também já tinha morado a jogada.
— Então me dá o nome dele, infeliz!!
— O nome eu não me lembro... Mas sei quem ele é... Um cara que vem sempre aqui, eu juro. Se eu bater o olho nele reconheço na mesma hora!
Então, pra sorte do X-9, eu aviso que vem vindo gente. Dois caras. Paranhos soltou X-9 e foi lavar as mãos. X-9, foi urinar. Já tinha até urinado, pra falar a verdade.
Os dois sujeitos também tinham ido urinar.
— Duas da matina? — disse um deles, um careca baixinho. — Estou fodido, minha mulher vai me comer o fígado quando eu chegar em casa...
— Vai nada... Finge que não é com você e vai dormir que uma hora ela se cansa. Ó, fodido está o Marinaldo, que vai aturar o seu Evangelista azucrinando no ouvido dele a noite toda.
Ao ouvir o nome do Marinaldo, X-9 pareceu se lembrar de alguma coisa.
— Coitado do Marinaldo — disse o careca baixinho —, como se já não bastasse o morre não morre da mulher...
Os dois homens saíram do banheiro. Paranhos, diante do espelhinho quebrado, estava penteando o cabelo quando X-9 correu até ele:
— Marinaldo! É isso!! O nome do cara é Marinaldo!!
Depois de um “Vem comigo, Zózimo”, Paranhos saiu voando baixo do banheiro, pagou nossa conta e me arrastou pro seu carro. Daí há pouco estávamos diante da casa do Marinaldo.
— Tem certeza que é ele mesmo?
— É o único Marinaldo que conheço. E depois ele não anda na maior pinda, gastando o que tem e o que não tem por causa da doença da mulher?
— E o infeliz pensando que a pior coisa que podia lhe acontecer essa noite era ter que aturar o seu Evangelista...
— Tá certo que ele não sai dessa sem umas porradas... Mas estou salvando a vida dele!! Que se o Rembrandt chegar antes o elemento vai direto pro Caju.
Então o som de um disparo veio do interior da casa. E outro. E mais outro. Paranhos sacou o revólver, saiu catando cavaco do carro, correu até a casa do Marinaldo, deu um coice na porta e entrou. Eu o acompanhei, sem pressa nenhuma, é claro.
A sala da casa era pequena e de poucos móveis, pela porta aberta que liga a sala ao quarto dava pra ver a mulher do Marinaldo vegetando na cama. Marinaldo estava caído, no meio da sala, praticamente no fim do carretel, amparado pelo religioso.
— Cadê o cara que atirou? – gritou Paranhos.
Seu Evangelista apontou pros fundos da casa:
— Pra lá, saiu pelos fundos.
Paranhos saiu voando baixo, atrás do Rembrandt. Eu me sentei no sofá, bem ao lado de seu Evangelista e do Marinaldo. Depois apanhei o telefone e liguei pro hospital.
— Tá morto? – quis saber.
— Quase. Não tem escapatória — e piedoso, acariciando a face de Marinaldo. — O Senhor há de ter um bom lugar pra ti, meu filho...
Eu já estava falando com o hospital:
— Não é caso de pressa não... Manda o rabecão. Quê?... O nome da rua? Peraí... Qual é mesmo o nome dessa rua, seu Evangelista?
Marinaldo, coitado, empacotando, olhava fixamente pro seu Evangelista.
— Qual é o nome dessa rua? — tornei a perguntar.
E seu Evangelista, demonstrando a inconveniência minha pergunta:
— Ora meu filho, faz favor...
Não teve jeito, tive que ir olhar. Pedi pra telefonista esperar um minuto e saí. Dentro da casa seu Evangelista continuava confortando o Marinaldo:
— Se você não tivesse corrido não sofria desse jeito, sua besta... Eu botava a bala no meio da sua testa, ficava um negócio bonito, uma pintura... Agora, por culpa tua, olha a merda de trabalho cagado que tive de fazer...
Quando voltei deu pra ver que o Marinaldo estava bem mais pra lá do que pra cá. Corri pro telefone:
— Rua da Saudade. 25. Isso... É, Madureira. Não precisa pressa...
Quando desliguei o telefone Marinaldo já estava morto. Então seu Evangelista se levantou, apanhou sua bíblia e foi até o quarto onde a mulher do finado agonizava fazia anos.
— O que o senhor vai fazer? – perguntei.
E ele, enigmático:
— Deixai os mortos com os seus mortos. É preciso cuidar dos vivos, seu Zózimo.
Seu Evangelista se ajoelhou diante do leito da viúva agonizante e começou a orar, dava pra ver pela porta aberta.
— Poderosíssimo Senhor, que sois a saúde eterna, escutai as orações por este doente...
O Paranhos tinha voltado, cansado e furioso. Pelo visto o tal Rembrandt tinha escapado. Sentou-se ao meu lado. Seu Evangelista, em transe, continuava orando.
— Bem sabemos que todos os recursos da ciência e todos os remédios humanos nada podem sem Vós, autor e inspirador de todo conhecimento útil...
Paranhos, depois que se acalmou, ao ver o estrago no peito e nas costas do Marinaldo, me garantiu:
— Não é um Rembrandt! Um artista como ele não ia fazer um trabalho porco desses.
Tive que concordar, o que tinham feito no Marinaldo não era mesmo uma obra de arte. Mas se aquela noite o tal Rembrandt não tinha dado as caras o mesmo não se podia dizer do Homem Lá de Cima, que devia mesmo se dar bem com seu Evangelista. Pois não é que, depois de o urubu passar a noite orando por ela, a viúva melhorou? Sim senhores, depois de anos de morre não morre a mulher do Marinaldo levantou-se e andou. Um milagre batata do seu Evangelista. No duro mesmo.

Um comentário:

  1. Esse Wander é batata!!!
    Sensacional! Não quero topar com seu Evangelista nunquinha!

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