Sim, meus senhores, o Bonitão estava jurado de morte. Outra vez e pelo motivo de sempre: papou a cara-metade alguém que não gostou de ter a testa enfeitada. Normal, quem bota chifres até que se diverte, mas quem os recebe... E apesar disso lá estava o garanhão, tomando sua Brahma bem gelada no boteco do Mossoró – que fica bem perto do Armarinho Imperial. E de quem é o Armarinho Imperial? Do Pereira, meus senhores, o corno da hora, o tal sujeito que anda por aí soltando fogo pelas ventas, jurando dar um tiro na boca do Bonitão. E o malandro tomando sua gelada praticamente na porta do Armarinho Imperial. Será que o Pereira tinha sido atropelado por um lotação e eu ainda não sabia? Só pode...
— Mas que idéia? — disse batendo na mesa quando lhe perguntei se estava comemorando o passamento do inimigo — O homem está vivo. Vivíssimo.
Bonitão pode ser acusado de muita coisa, de praticamente tudo, e quase sempre com razão!, menos de valente. Valente ele não é.
— Pois então... Vivo! E você tomando cerveja ao lado do inimigo?
— Inimigo? Meu inimigo, o Pereira? Mas que idéia é essa, Zózimo?
Eu sou um sujeito calmo. Muito, mas muito raramente mesmo, e só quando a partida está a completamente a meu favor, parto pra briga, meus senhores, mas ali tinha coisa e eu queria saber o que era. E se o Bonitão não rasgasse logo o verbo eu baixava-lhe o cacete.
CHIFRES IMPERIAIS
O Bonitão, além de não agüentar pressão, estava louco pra falar.
— O Pereira, todo mundo sabe, depois que descobriu ser parente distante de um barão aí do tempo dos alfonsinhos, virou entusiasta da restauração da monarquia no Brasil. Bom, mas isso não importa, cada louco com sua mania, é ou não é? O que realmente importa pro Zezinho aqui é o mulherão que o Pereira tem em casa, a Vanildes. Que mulher! Se Pedro II não fosse aquele bucho, se tivesse aqueles peitos, se tivesse aquela bunda, duvido que botassem o velhote pra correr.
— Mas o que é que isso tem a ver?... — será que vou ter que dar um catiripapo no malandro pra ele abrir o jogo? — Abrevia, vagabundo. Abrevia!
— Calma, Zózimo. Calma que o Brasil é nosso! O negócio é que assim que bati o olho na Vanildes, decidi me ‘introduzir’ de mala e cuia no círculo monárquico, se é que você me entende.
Claro que eu entendia, eu e a torcida do Flamengo. O malandro continuou:
— Bom, aí comecei a cercar o futuro corno... Vai daqui e vai dali, era só o Pereira estar por perto pra eu discursar que ‘só a monarquia pra dar um jeito na carestia’, pra berrar que ‘só a monarquia pra acabar com a corrupção nesse país’...
— E funcionou?
— E como não, meu filho? Não demorou nadica pro Pereira começar a me dar bons dias e boas tardes. E num dia me convidava pra fazer uma visitinha lá na lojinha dele e num outro perguntava se eu não queria dar um pulinho com ele lá em Petrópolis, ‘para talvez, quem sabe, com um pouco de sorte, ver algum membro da realeza passar’. E o Zezinho aqui visita a loja dele num dia e no outro vai com a besta até Petrópolis e aí...
— E aí o quê?...
— E aí que mais uns dias e passei a freqüentar a casa do cretino. Primeiro com a anta presente, depois, e aí era muito mais negócio!, quando o dono da casa não estava. Nessas ocasiões, que foram muitas, entrava, agarrava a Vanildes e já ia pro quarto, que não sou nem absolutista e nem parlamentarista, sou é monarquista de alcova.
— Papagaio!
— E às vezes até levava aquele monumento pra passear, que a Vanildes gosta de samba, gosta de uma cervejinha, de uma macumbinha. Aliás, depois que o marido começou com essa febre monarquista a vida dela virou um saco. E ela, não sei se você sabe, é do povo, tem origem humilde - foi descoberta pelo Pereira lá em Bangu. O filho da mãe botou o olho na pequena e foi chegando, ficou amigo dos pais dela, deu uma geladeira pros velhos. Como ninguém resiste a uma geladeira, casou-se com a Vanildes.
— Então o português foi buscar aquele monumento lá em Bangu, foi?
— Foi. Tirou ela de lá, mas não conseguiu tirar Bangu de dentro dela. E também não conseguiu que ela cumprisse a promessa de nunca mais botar os pés num terreiro de macumba. O homem botou na cabeça que esse negócio de preto não combina muito com a nobreza monárquica.
— Sério?
— Seríssimo. Inclusive, na tentativa de iniciar a Vanildes nos ritos monárquicos, sempre me pedia pra levar aquele pitéu ao Museu Imperial, pra ver se um banho de cultura botava Bangu pra escanteio. Eu não ia dizer não pro Pereira, ia? Toda semana descia com a Vanildes pra Petrópolis, mas como nem ela e nem eu gostamos de museu, levava a mulher dele pralgum lugar mais interessante e aí já viu, né?
— Ô! Mas estava na cara que os chifres imperiais que vocês estavam lhe colocando iam acabar coçando na testa do homem.
— O negócio, Zózimo, é que um Chalaça qualquer ligou pro corno e deu o serviço completo. Aí a vaca foi pro brejo.
— Se foi! Todo mundo viu, o Pereira fez o maior escândalo, saiu por aí jurando que ia fazer o diabo, que passava fogo na adúltera, que ia te matar, que fazia isso e aquilo.
E o Bonitão, cínico:
— Pois é... Que coisa, não?
— “Que coisa, não?” E você diz isso com essa cara? Aí tem coisa, aí tem coisa. Conta logo, Bonitão. Conta tudo!!
É O IMPERADOR. É O IMPERADOR!
O caso, o Bonitão me contou, é que entre o tal telefonema e o flagrante foi questão de minutos. E se é verdade que o Pereira chegou em casa – que nesse dia a orgia foi na residência da besta — a um passo do infarto, mais morto do que vivo, suando em bicas, também é verdade que nem um milagre seria capaz de salvar ele e a Vanildes da morte certa — porque o Pereira é do tipo de corno que mata, Bonitão assegurou como profundo conhecedor que é desses tipos.
— Sabe corno de olhar assassino? Justamente o do Pereira. Eu já ia começando a rezar, mas aí...
— Mas aí?
— Mas aí que a candidata a defunta era muito viva. Viva demais pra se deixar matar por uma besta que nem o Pereira...
— Os detalhes. Anda, eu quero os detalhes.
— O negócio é que de uma hora pra outra a Vanildes se levantou, como se estivesse possuída por um espírito, engrossou a voz e começou a gritar: É o imperador! É o imperador!!
— O imperador?
— Isso mesmo: É o imperador! É o imperador!! E aí, como o Pereira ficou paralisado, com a maior cara de idiota da paróquia, ela partiu pra cima dele e disse que o imperador tinha baixado em mim, vê se pode?
— Assim mesmo, desse jeito, no duro?
— No duríssimo. E ainda passou o maior pito no marido: Então é assim que você recebe seu imperador?... De arma não mão?
— Papagaio! E aí?...
— E aí que como bom conhecedor que é da realeza brasileira o Pereira logo viu que foi o espírito do primeiro imperador que tinha baixado em mim.
— Mas... — eu estava besta, com a cara no chão. — Então ele acreditou?
Bonitão não respondeu, que nessa hora o Pereira estava chegando, vinha direto pra nossa mesa. Eu ia correndo, que se o homem começa a atirar ainda podia me acertar, mas aí o Bonitão segurou meu braço - como quem diz ‘fica, que não tem perigo - e eu fiquei. E de fato não havia o que temer. Foi uma visita rápida, o Pereira chegou, curvou-se levemente em sinal de respeito, falou que a Vanildes ‘ia ficar muito contente se Vossa Majestade a honrasse com uma passadinha lá em casa’ e foi vender seus panos lá no Armarinho Imperial, um baita de um sorriso monárquico se desenhando em seu rosto. E o Bonitão, pra mim:
— A besta está toda orgulhosa de ele e o imperador estarem comendo a mesma mulher.
— Papagaio!
Aí o cavalo do imperador riu baixinho e gritou pro Mossoró:
— Vê outra aqui, ó. Bem gelada.
9.18.2009
9.03.2009
Não é um Rembrandt!
Boteco do Mossoró, bem mais de meia-noite. Estávamos numa mesa ao lado da porta, eu, o Bonitão e o Paranhos, que tinha acabado de fazer a pergunta ao Bonitão, como se não soubesse a resposta:
— E aí?
— E aí? Como e aí? Aí o Zezinho aqui papou, carambolas! Também, o marido tava pedindo! O sujeito que vai pra Amazônia alfabetizar a bugrada e deixa um mulherão daqueles sozinho em casa está pedindo ou não está?
Estava. E eu também resolvi pedir, outra coisa é claro:
— Ô Mossoró, vê mais uma aí. Bem gelada!
— Mas tu não faz outra coisa na vida, Bonitão? — quis saber o Paranhos, indignado com a boa vida do garanhão.
— E dá tempo? Faz idéia de quanta mulher tem nesse Rio de Janeiro?
Foi nessa hora que seu Evangelista, sempre com sua bíblia debaixo do braço, entrou no boteco.
— O que vai ser, seu Evangelista? — perguntou Mossoró, já louco pra ver o homem ir embora.
— Um copo d´água, irmão. Só um copo d´água.
Enquanto Mossoró foi apanhar a água, os clientes mais próximos ao balcão recuaram, incomodados com a presença do religioso. O clima no boteco tinha mudado do vinho pra água, só Bonitão continuava agitado como antes:
— O negócio é o seguinte, Paranhos, se o Zezinho aqui for papar todo o mulherio que corre atrás dele não sobra tempo nem pro Fla-Flu.
Tive que segurar o homem:
— Agora não! Agora não!!
Seu Evangelista bebeu sua água, agradeceu e foi saindo do boteco. Mas então, quando todos já respiravam aliviados, olhou para um dos presentes, um mulatinho chamado Marinaldo, e se aproximou dele.
— Boa noite, seu Marinaldo. E sua senhora, melhorando?
— E tem jeito, seu Evangelista? Entra ano sai ano e a pobre só piorando, coitada.
— Pois o senhor não perca as esperanças. Eu vou interceder por ela nas minhas orações e com certeza Deus há de operar. O poder de Deus é soberano, seu Marinaldo. Soberaníssimo!
— Amém, seu Evangelista, Amém!
— Sabe, seu Marinaldo, o senhor é mesmo um homem de sorte.
E o Marinaldo, com uma ironia triste na voz:
— Sou, é?
— Pois não é que estou sentindo, bem forte, a presença do Altíssimo?! Aliás, Ele está falando comigo agora mesmo. Aleluia!
— É mesmo? Bem... Boa noite, seu Evangelista. Boa noite que eu já vou indo e...
— Boa noite não, que vou acompanhar o senhor até a sua casa.
— Minha casa? Mas não estou indo pra lá, seu Evangelista. Antes eu ainda tenho que resolver um assunto...
— E tem assunto mais importante que a saúde da sua senhora? Deus, seu Marinaldo, Deus está dizendo pra eu ir até sua casa operar um milagre, o senhor está me entendendo? — e antes que Marinaldo pudesse dizer alguma coisa, seu Evangelista já o empurrava pra fora do boteco. — Vamos logo, homem, vamos expulsar o demônio da enfermidade do corpo da sua senhora.
Assim que saíram o boteco tornou a ficar ruidoso. Então dei uma senhora comida de rabo no Bonitão:
— Mas o que você ia fazendo? Queria atrair o urubu pra nossa mesa, é?
— Ué?... Mas o que foi que eu fiz?
— Então você não sabe que pro seu Evangelista a alegria alheia é quase ofensa pessoal?
Paranhos reforçou:
— O que esse elemento gosta mesmo, no duro, é de topar com neguinho ruim das pernas, na pindaíba... Pra poder ‘derramar’ sua piedade sobre o infeliz.
— Isso! – concordei. — Como é que ele vai dar uma de bonzinho e piedoso se o sujeito estiver vendendo saúde, se tiver ganho no bicho?
— Eu que não preciso da generosidade dele — disse Bonitão, já se levantando. — Bom, vou indo... O Zezinho aqui vai confortar uma dona solitária... Coitada, o marido dela está de plantão hoje.
Eu:
— Vai, meu filho, vai consolar a coitadinha.
O Paranhos:
— Vai, filho da mãe.
E o Bonitão foi. Daí, aproveitado que estávamos a sós, toquei no assunto que trouxe o Paranhos ao boteco do Mossoró àquela noite:
— E teu homem, Paranhos? Quem é o tal sujeito?
— Só vou saber quando o X-9 chegar. Mas que ele é um desses aí, isso é. E aposto que vou ser promovido depois que mandar o cretino pra trás das grades.
— Já estou até vendo, na primeira página dos jornais, em letras garrafais: Sherlock de ébano desbarata quadrilha internacional!
— Só estou cumprindo com meu dever — disse Paranhos, com a falsa modéstia mais mal disfarçada do planeta.
— Então merece outra bem gelada. Vê outra aqui, Mossoró!!
Então o X-9, um sujeito muito magro e desconfiado, a cabeça enfiada num boné, entrou no boteco e foi até o balcão.
— Ó o dedo-duro aí!! Agora é ver quem ele vai alcagüetar...
Nisso, X-9 pediu uma cerveja e começou a procurar alguém entre os presentes. Olhou pra um, pra outro, pra um lado, pro outro. E aí olhou pro Paranhos, como quem diz: “Teu homem não está aqui”.
— Será que o elemento ainda não veio? Não estou gostando. O X-9 garantiu que era batata, que o sujeito está sempre por aqui...
— Calma que o Brasil é nosso! Espera um pouco que teu homem já deve estar chegando aí... Ó,toma mais uma, que essa tá supimpa!
Tomamos muitas outras e nada de o tal sujeito aparecer.
— Papagaio! O X-9 garantiu que um elemento aqui do bairro se meteu com essa quadrilha que te falei... Parece que o filho da mãe estava apertado, precisando de grana e aí deu a dica de um trabalho pra eles...
— E fez bom negócio?...
— Uma ova que fez! Ninguém bota a mão nessa quadrilha porque eles têm o hábito de dar cabo de todos que se envolvem com eles... O cara acha que está fazendo um negocião e termina no Caju, comendo capim pela raiz.
— Papagaio!!
— E periga apagarem o sujeito antes de eu botar as mãos nele... Soube que o bando contratou o Rembrandt pra fechar o paletó do pessoal que sabe demais, que pode dar com a língua nos dentes...
— Rembrandt?
— É... Chamam ele assim porque o homem é um artista. Todas as suas vítimas terminam com um buraco no meio da testa. É a assinatura dele. O sujeito, onde põe o olho põe a bala.
De repente Paranhos bateu o copo com violência sobre a mesa.
— Assim não dá, tem algo errado! Vem comigo, Zózimo!
E se levantou, foi pro banheiro. E eu com ele. Ao passar próximo ao dedo-duro fez um discreto sinal para que ele nos acompanhasse.
E me pediu, assim que o X-9 entrou no banheiro:
— Fica de olho e me avisa quando estiver vindo alguém — e partiu pra cima do X-9. — Cadê o elemento, ô infeliz? Você está brincando comigo?
— Era pra estar aqui... Ele sempre vem...
A paciência de Paranhos tinha se esgotado, estava na cara que logo ia dar um cataplum no alcagueta, eu sabia. E pela cara do X-9, ele também já tinha morado a jogada.
— Então me dá o nome dele, infeliz!!
— O nome eu não me lembro... Mas sei quem ele é... Um cara que vem sempre aqui, eu juro. Se eu bater o olho nele reconheço na mesma hora!
Então, pra sorte do X-9, eu aviso que vem vindo gente. Dois caras. Paranhos soltou X-9 e foi lavar as mãos. X-9, foi urinar. Já tinha até urinado, pra falar a verdade.
Os dois sujeitos também tinham ido urinar.
— Duas da matina? — disse um deles, um careca baixinho. — Estou fodido, minha mulher vai me comer o fígado quando eu chegar em casa...
— Vai nada... Finge que não é com você e vai dormir que uma hora ela se cansa. Ó, fodido está o Marinaldo, que vai aturar o seu Evangelista azucrinando no ouvido dele a noite toda.
Ao ouvir o nome do Marinaldo, X-9 pareceu se lembrar de alguma coisa.
— Coitado do Marinaldo — disse o careca baixinho —, como se já não bastasse o morre não morre da mulher...
Os dois homens saíram do banheiro. Paranhos, diante do espelhinho quebrado, estava penteando o cabelo quando X-9 correu até ele:
— Marinaldo! É isso!! O nome do cara é Marinaldo!!
Depois de um “Vem comigo, Zózimo”, Paranhos saiu voando baixo do banheiro, pagou nossa conta e me arrastou pro seu carro. Daí há pouco estávamos diante da casa do Marinaldo.
— Tem certeza que é ele mesmo?
— É o único Marinaldo que conheço. E depois ele não anda na maior pinda, gastando o que tem e o que não tem por causa da doença da mulher?
— E o infeliz pensando que a pior coisa que podia lhe acontecer essa noite era ter que aturar o seu Evangelista...
— Tá certo que ele não sai dessa sem umas porradas... Mas estou salvando a vida dele!! Que se o Rembrandt chegar antes o elemento vai direto pro Caju.
Então o som de um disparo veio do interior da casa. E outro. E mais outro. Paranhos sacou o revólver, saiu catando cavaco do carro, correu até a casa do Marinaldo, deu um coice na porta e entrou. Eu o acompanhei, sem pressa nenhuma, é claro.
A sala da casa era pequena e de poucos móveis, pela porta aberta que liga a sala ao quarto dava pra ver a mulher do Marinaldo vegetando na cama. Marinaldo estava caído, no meio da sala, praticamente no fim do carretel, amparado pelo religioso.
— Cadê o cara que atirou? – gritou Paranhos.
Seu Evangelista apontou pros fundos da casa:
— Pra lá, saiu pelos fundos.
Paranhos saiu voando baixo, atrás do Rembrandt. Eu me sentei no sofá, bem ao lado de seu Evangelista e do Marinaldo. Depois apanhei o telefone e liguei pro hospital.
— Tá morto? – quis saber.
— Quase. Não tem escapatória — e piedoso, acariciando a face de Marinaldo. — O Senhor há de ter um bom lugar pra ti, meu filho...
Eu já estava falando com o hospital:
— Não é caso de pressa não... Manda o rabecão. Quê?... O nome da rua? Peraí... Qual é mesmo o nome dessa rua, seu Evangelista?
Marinaldo, coitado, empacotando, olhava fixamente pro seu Evangelista.
— Qual é o nome dessa rua? — tornei a perguntar.
E seu Evangelista, demonstrando a inconveniência minha pergunta:
— Ora meu filho, faz favor...
Não teve jeito, tive que ir olhar. Pedi pra telefonista esperar um minuto e saí. Dentro da casa seu Evangelista continuava confortando o Marinaldo:
— Se você não tivesse corrido não sofria desse jeito, sua besta... Eu botava a bala no meio da sua testa, ficava um negócio bonito, uma pintura... Agora, por culpa tua, olha a merda de trabalho cagado que tive de fazer...
Quando voltei deu pra ver que o Marinaldo estava bem mais pra lá do que pra cá. Corri pro telefone:
— Rua da Saudade. 25. Isso... É, Madureira. Não precisa pressa...
Quando desliguei o telefone Marinaldo já estava morto. Então seu Evangelista se levantou, apanhou sua bíblia e foi até o quarto onde a mulher do finado agonizava fazia anos.
— O que o senhor vai fazer? – perguntei.
E ele, enigmático:
— Deixai os mortos com os seus mortos. É preciso cuidar dos vivos, seu Zózimo.
Seu Evangelista se ajoelhou diante do leito da viúva agonizante e começou a orar, dava pra ver pela porta aberta.
— Poderosíssimo Senhor, que sois a saúde eterna, escutai as orações por este doente...
O Paranhos tinha voltado, cansado e furioso. Pelo visto o tal Rembrandt tinha escapado. Sentou-se ao meu lado. Seu Evangelista, em transe, continuava orando.
— Bem sabemos que todos os recursos da ciência e todos os remédios humanos nada podem sem Vós, autor e inspirador de todo conhecimento útil...
Paranhos, depois que se acalmou, ao ver o estrago no peito e nas costas do Marinaldo, me garantiu:
— Não é um Rembrandt! Um artista como ele não ia fazer um trabalho porco desses.
Tive que concordar, o que tinham feito no Marinaldo não era mesmo uma obra de arte. Mas se aquela noite o tal Rembrandt não tinha dado as caras o mesmo não se podia dizer do Homem Lá de Cima, que devia mesmo se dar bem com seu Evangelista. Pois não é que, depois de o urubu passar a noite orando por ela, a viúva melhorou? Sim senhores, depois de anos de morre não morre a mulher do Marinaldo levantou-se e andou. Um milagre batata do seu Evangelista. No duro mesmo.
— E aí?
— E aí? Como e aí? Aí o Zezinho aqui papou, carambolas! Também, o marido tava pedindo! O sujeito que vai pra Amazônia alfabetizar a bugrada e deixa um mulherão daqueles sozinho em casa está pedindo ou não está?
Estava. E eu também resolvi pedir, outra coisa é claro:
— Ô Mossoró, vê mais uma aí. Bem gelada!
— Mas tu não faz outra coisa na vida, Bonitão? — quis saber o Paranhos, indignado com a boa vida do garanhão.
— E dá tempo? Faz idéia de quanta mulher tem nesse Rio de Janeiro?
Foi nessa hora que seu Evangelista, sempre com sua bíblia debaixo do braço, entrou no boteco.
— O que vai ser, seu Evangelista? — perguntou Mossoró, já louco pra ver o homem ir embora.
— Um copo d´água, irmão. Só um copo d´água.
Enquanto Mossoró foi apanhar a água, os clientes mais próximos ao balcão recuaram, incomodados com a presença do religioso. O clima no boteco tinha mudado do vinho pra água, só Bonitão continuava agitado como antes:
— O negócio é o seguinte, Paranhos, se o Zezinho aqui for papar todo o mulherio que corre atrás dele não sobra tempo nem pro Fla-Flu.
Tive que segurar o homem:
— Agora não! Agora não!!
Seu Evangelista bebeu sua água, agradeceu e foi saindo do boteco. Mas então, quando todos já respiravam aliviados, olhou para um dos presentes, um mulatinho chamado Marinaldo, e se aproximou dele.
— Boa noite, seu Marinaldo. E sua senhora, melhorando?
— E tem jeito, seu Evangelista? Entra ano sai ano e a pobre só piorando, coitada.
— Pois o senhor não perca as esperanças. Eu vou interceder por ela nas minhas orações e com certeza Deus há de operar. O poder de Deus é soberano, seu Marinaldo. Soberaníssimo!
— Amém, seu Evangelista, Amém!
— Sabe, seu Marinaldo, o senhor é mesmo um homem de sorte.
E o Marinaldo, com uma ironia triste na voz:
— Sou, é?
— Pois não é que estou sentindo, bem forte, a presença do Altíssimo?! Aliás, Ele está falando comigo agora mesmo. Aleluia!
— É mesmo? Bem... Boa noite, seu Evangelista. Boa noite que eu já vou indo e...
— Boa noite não, que vou acompanhar o senhor até a sua casa.
— Minha casa? Mas não estou indo pra lá, seu Evangelista. Antes eu ainda tenho que resolver um assunto...
— E tem assunto mais importante que a saúde da sua senhora? Deus, seu Marinaldo, Deus está dizendo pra eu ir até sua casa operar um milagre, o senhor está me entendendo? — e antes que Marinaldo pudesse dizer alguma coisa, seu Evangelista já o empurrava pra fora do boteco. — Vamos logo, homem, vamos expulsar o demônio da enfermidade do corpo da sua senhora.
Assim que saíram o boteco tornou a ficar ruidoso. Então dei uma senhora comida de rabo no Bonitão:
— Mas o que você ia fazendo? Queria atrair o urubu pra nossa mesa, é?
— Ué?... Mas o que foi que eu fiz?
— Então você não sabe que pro seu Evangelista a alegria alheia é quase ofensa pessoal?
Paranhos reforçou:
— O que esse elemento gosta mesmo, no duro, é de topar com neguinho ruim das pernas, na pindaíba... Pra poder ‘derramar’ sua piedade sobre o infeliz.
— Isso! – concordei. — Como é que ele vai dar uma de bonzinho e piedoso se o sujeito estiver vendendo saúde, se tiver ganho no bicho?
— Eu que não preciso da generosidade dele — disse Bonitão, já se levantando. — Bom, vou indo... O Zezinho aqui vai confortar uma dona solitária... Coitada, o marido dela está de plantão hoje.
Eu:
— Vai, meu filho, vai consolar a coitadinha.
O Paranhos:
— Vai, filho da mãe.
E o Bonitão foi. Daí, aproveitado que estávamos a sós, toquei no assunto que trouxe o Paranhos ao boteco do Mossoró àquela noite:
— E teu homem, Paranhos? Quem é o tal sujeito?
— Só vou saber quando o X-9 chegar. Mas que ele é um desses aí, isso é. E aposto que vou ser promovido depois que mandar o cretino pra trás das grades.
— Já estou até vendo, na primeira página dos jornais, em letras garrafais: Sherlock de ébano desbarata quadrilha internacional!
— Só estou cumprindo com meu dever — disse Paranhos, com a falsa modéstia mais mal disfarçada do planeta.
— Então merece outra bem gelada. Vê outra aqui, Mossoró!!
Então o X-9, um sujeito muito magro e desconfiado, a cabeça enfiada num boné, entrou no boteco e foi até o balcão.
— Ó o dedo-duro aí!! Agora é ver quem ele vai alcagüetar...
Nisso, X-9 pediu uma cerveja e começou a procurar alguém entre os presentes. Olhou pra um, pra outro, pra um lado, pro outro. E aí olhou pro Paranhos, como quem diz: “Teu homem não está aqui”.
— Será que o elemento ainda não veio? Não estou gostando. O X-9 garantiu que era batata, que o sujeito está sempre por aqui...
— Calma que o Brasil é nosso! Espera um pouco que teu homem já deve estar chegando aí... Ó,toma mais uma, que essa tá supimpa!
Tomamos muitas outras e nada de o tal sujeito aparecer.
— Papagaio! O X-9 garantiu que um elemento aqui do bairro se meteu com essa quadrilha que te falei... Parece que o filho da mãe estava apertado, precisando de grana e aí deu a dica de um trabalho pra eles...
— E fez bom negócio?...
— Uma ova que fez! Ninguém bota a mão nessa quadrilha porque eles têm o hábito de dar cabo de todos que se envolvem com eles... O cara acha que está fazendo um negocião e termina no Caju, comendo capim pela raiz.
— Papagaio!!
— E periga apagarem o sujeito antes de eu botar as mãos nele... Soube que o bando contratou o Rembrandt pra fechar o paletó do pessoal que sabe demais, que pode dar com a língua nos dentes...
— Rembrandt?
— É... Chamam ele assim porque o homem é um artista. Todas as suas vítimas terminam com um buraco no meio da testa. É a assinatura dele. O sujeito, onde põe o olho põe a bala.
De repente Paranhos bateu o copo com violência sobre a mesa.
— Assim não dá, tem algo errado! Vem comigo, Zózimo!
E se levantou, foi pro banheiro. E eu com ele. Ao passar próximo ao dedo-duro fez um discreto sinal para que ele nos acompanhasse.
E me pediu, assim que o X-9 entrou no banheiro:
— Fica de olho e me avisa quando estiver vindo alguém — e partiu pra cima do X-9. — Cadê o elemento, ô infeliz? Você está brincando comigo?
— Era pra estar aqui... Ele sempre vem...
A paciência de Paranhos tinha se esgotado, estava na cara que logo ia dar um cataplum no alcagueta, eu sabia. E pela cara do X-9, ele também já tinha morado a jogada.
— Então me dá o nome dele, infeliz!!
— O nome eu não me lembro... Mas sei quem ele é... Um cara que vem sempre aqui, eu juro. Se eu bater o olho nele reconheço na mesma hora!
Então, pra sorte do X-9, eu aviso que vem vindo gente. Dois caras. Paranhos soltou X-9 e foi lavar as mãos. X-9, foi urinar. Já tinha até urinado, pra falar a verdade.
Os dois sujeitos também tinham ido urinar.
— Duas da matina? — disse um deles, um careca baixinho. — Estou fodido, minha mulher vai me comer o fígado quando eu chegar em casa...
— Vai nada... Finge que não é com você e vai dormir que uma hora ela se cansa. Ó, fodido está o Marinaldo, que vai aturar o seu Evangelista azucrinando no ouvido dele a noite toda.
Ao ouvir o nome do Marinaldo, X-9 pareceu se lembrar de alguma coisa.
— Coitado do Marinaldo — disse o careca baixinho —, como se já não bastasse o morre não morre da mulher...
Os dois homens saíram do banheiro. Paranhos, diante do espelhinho quebrado, estava penteando o cabelo quando X-9 correu até ele:
— Marinaldo! É isso!! O nome do cara é Marinaldo!!
Depois de um “Vem comigo, Zózimo”, Paranhos saiu voando baixo do banheiro, pagou nossa conta e me arrastou pro seu carro. Daí há pouco estávamos diante da casa do Marinaldo.
— Tem certeza que é ele mesmo?
— É o único Marinaldo que conheço. E depois ele não anda na maior pinda, gastando o que tem e o que não tem por causa da doença da mulher?
— E o infeliz pensando que a pior coisa que podia lhe acontecer essa noite era ter que aturar o seu Evangelista...
— Tá certo que ele não sai dessa sem umas porradas... Mas estou salvando a vida dele!! Que se o Rembrandt chegar antes o elemento vai direto pro Caju.
Então o som de um disparo veio do interior da casa. E outro. E mais outro. Paranhos sacou o revólver, saiu catando cavaco do carro, correu até a casa do Marinaldo, deu um coice na porta e entrou. Eu o acompanhei, sem pressa nenhuma, é claro.
A sala da casa era pequena e de poucos móveis, pela porta aberta que liga a sala ao quarto dava pra ver a mulher do Marinaldo vegetando na cama. Marinaldo estava caído, no meio da sala, praticamente no fim do carretel, amparado pelo religioso.
— Cadê o cara que atirou? – gritou Paranhos.
Seu Evangelista apontou pros fundos da casa:
— Pra lá, saiu pelos fundos.
Paranhos saiu voando baixo, atrás do Rembrandt. Eu me sentei no sofá, bem ao lado de seu Evangelista e do Marinaldo. Depois apanhei o telefone e liguei pro hospital.
— Tá morto? – quis saber.
— Quase. Não tem escapatória — e piedoso, acariciando a face de Marinaldo. — O Senhor há de ter um bom lugar pra ti, meu filho...
Eu já estava falando com o hospital:
— Não é caso de pressa não... Manda o rabecão. Quê?... O nome da rua? Peraí... Qual é mesmo o nome dessa rua, seu Evangelista?
Marinaldo, coitado, empacotando, olhava fixamente pro seu Evangelista.
— Qual é o nome dessa rua? — tornei a perguntar.
E seu Evangelista, demonstrando a inconveniência minha pergunta:
— Ora meu filho, faz favor...
Não teve jeito, tive que ir olhar. Pedi pra telefonista esperar um minuto e saí. Dentro da casa seu Evangelista continuava confortando o Marinaldo:
— Se você não tivesse corrido não sofria desse jeito, sua besta... Eu botava a bala no meio da sua testa, ficava um negócio bonito, uma pintura... Agora, por culpa tua, olha a merda de trabalho cagado que tive de fazer...
Quando voltei deu pra ver que o Marinaldo estava bem mais pra lá do que pra cá. Corri pro telefone:
— Rua da Saudade. 25. Isso... É, Madureira. Não precisa pressa...
Quando desliguei o telefone Marinaldo já estava morto. Então seu Evangelista se levantou, apanhou sua bíblia e foi até o quarto onde a mulher do finado agonizava fazia anos.
— O que o senhor vai fazer? – perguntei.
E ele, enigmático:
— Deixai os mortos com os seus mortos. É preciso cuidar dos vivos, seu Zózimo.
Seu Evangelista se ajoelhou diante do leito da viúva agonizante e começou a orar, dava pra ver pela porta aberta.
— Poderosíssimo Senhor, que sois a saúde eterna, escutai as orações por este doente...
O Paranhos tinha voltado, cansado e furioso. Pelo visto o tal Rembrandt tinha escapado. Sentou-se ao meu lado. Seu Evangelista, em transe, continuava orando.
— Bem sabemos que todos os recursos da ciência e todos os remédios humanos nada podem sem Vós, autor e inspirador de todo conhecimento útil...
Paranhos, depois que se acalmou, ao ver o estrago no peito e nas costas do Marinaldo, me garantiu:
— Não é um Rembrandt! Um artista como ele não ia fazer um trabalho porco desses.
Tive que concordar, o que tinham feito no Marinaldo não era mesmo uma obra de arte. Mas se aquela noite o tal Rembrandt não tinha dado as caras o mesmo não se podia dizer do Homem Lá de Cima, que devia mesmo se dar bem com seu Evangelista. Pois não é que, depois de o urubu passar a noite orando por ela, a viúva melhorou? Sim senhores, depois de anos de morre não morre a mulher do Marinaldo levantou-se e andou. Um milagre batata do seu Evangelista. No duro mesmo.
Assinar:
Postagens (Atom)